quarta-feira, 23 de setembro de 2026

38) Enquanto as vidas secam

Ilustrações de Aldemir Martins para Vidas Secas

A morte de Baleia não é novidade para ninguém. Mas vou jogar outra dessas na mesa: Addie Bundren também está morrendo. Você ainda não sabe de quem se trata, mas intui pelo título do livro de Faulkner, “Enquanto agonizo”, que alguém não anda bem. Se antes da morte, enquanto agonizava, Baleia andava como gente, com apenas duas patas, por ter tomado um tiro em uma delas, dado por Fabiano, de quem a culpa vai consumi-lo como mosca varejeira cheia de fome; por outro lado, Addie Bundren não podia caminhar como gente. Ela jazia dentro de seu aposento, enquanto o seu filho, Cash, construía o caixão dela ao lado do quarto, na parte de fora, sob a janela. Esta é a história do livro de Faulkner: filhos e marido devem levar Addie Bundren dentro de um caixão até a sua cidade natal, Jefferson, para que seja enterrada segundo as suas vontades. É interessante pensar que mortos têm vontades e que estas são respeitadas. É preciso levar Addie de carroça, inclusive atravessando um rio. Baleia gostaria de ter as suas vontades respeitadas, que atravessassem um rio por ela, e não que um tiro a atravessasse: irônico pensar que a pouca água que há nos arredores polui-se com a podridão de seu corpo. Poderia Baleia assistir a este périplo, recolhida e misturada às folhas da fazenda, depois de ter brincado com os filhos sem nome, seus amigos, se não estivesse com raiva de Fabiano, e sem saber por que aquilo havia acontecido; por que sua visão encontrava-se turva? Por que Baleia não conseguia se levantar? Addie Bundren pelo menos sabia o porquê, sabia o motivo de estar ali. Baleia não compreendia. Baleia foi enganada, e ser enganada dói mais do que chumbo, e não há em quem se agarrar, nem no quê, às vezes pedindo colo justamente a quem nos deu um tiro. A nada, portanto, muito menos nas marteladas de Cash a pregar madeiras com raiva. Baleia não teve a dignidade de Addie, pelo contrário: os olhos comidos por urubus.

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