segunda-feira, 26 de abril de 2021

21) O Chute Final

A esfera alva sobre o círculo branco. Os pés do italiano Roberto Baggio procuram se afastar da bola. Baggio suspende a cabeça para encarar o problema e descansa as mãos ao redor da barriga. Respira. Ante seus olhos, o goleiro, um tal de Taffarel.

Roberto Baggio quer atravessar o recém descoberto pegador de pênaltis — aquele jogador irregular do Reggiana, time modesto do mesmo país onde Baggio é sinônimo de ídolo. 

Já o menino, com seus 7 anos de idade, está sentado no chão de ardósia da sala de casa. Acompanha pela tevê de '14 e bombril na antena, junto dos irmãos e pais, a famosa disputa de pênaltis entre Brasil e Itália. É, claro, a final da Copa do Mundo de 1994, realizada no Rose Bowl, nos EUA.

O menino é morador da emergente cidade de Divinópolis, interior de Minas Gerais, no Brasil. Ele nada mais ama do que o futebol, e seu coração confirma o amor quando seus olhos nem piscam diante da tela chapiscada. Dali em diante o menino se tornará um fanático pela pelota. Fará campeonatos entre seus botões, escalará o desconhecido Ponte Preta de cor e seus aniversários terão balões coloridos como as cores do seu time do coração. 

Baggio precisa colocar a bola em um lugar entre o goleiro e os postes de metal. Um lugar que faça as redes balançarem assim como os torcedores do seu time. Um lugar que não transforme Taffarel em heroi — o mesmo goleiro insolente que já agarrou um pênalti mal batido de Massaro minutos antes. Roberto Baggio não pensa no menino. Por que o então maior jogador do mundo, ganhador da bola de Ouro do ano anterior, pensaria? Mas sabe que existem milhões à espera de seu derradeiro chute, seja em Divinópolis, na cidade de Roma ou nas cadeiras numeradas do estádio americano, o mesmo coliseu em que ele, Baggio, se prepara para se tornar ídolo ou — como uma moeda de duas caras lançadas ao ar pelo juiz — o vilão. 

O menino rói as unhas de ansiedade. As unhas de Baggio estão intactas; ele apenas se concentra no objetivo, aquilo que os ingleses não à toa deram o nome de Goal.

Como um ser onisciente, vindo do alto-falante da CCE, uma voz meio aveludada e rouca narra com emoção a seguinte frase: "...vai partir... ...VAI QUE É SUA, TAFFAREEEL! PARTIU! BATEU!..."

Segundos antes, Baggio corre até a bola. Taffarel se adianta, dando um passo e pulando para frente. Baggio chuta. Taffarel cai. A bola sobrevoa acima do travessão. A narração completa: "...CABÔÔÔ! CABÔÔÔ! ACABÔÔÔÔÔ! É TETRAAA! É TETRAAA! O BRASIIIIIIL É TETRA CAMPEÃÃO MUNDIAAAL DE FUTEBOOOL! O BRASIIIIL, VIIINTE QUATRO ANOS DEPOOOIS, É TETRA CAMPEÃO MUNDIAAAL DE FUTEBOOL!...".

Roberto Baggio não chegou a ouvir aquela frase. Depois do chute final, apenas deixou o queixo cair sobre o peito, como um Dadá Maravilha às avessas, sem encontrar a bola que justificasse o gesto. Não ouviu aquela frase gorda e emotiva que, para ele, seria um tremendo fastio. O que seus ouvidos desejaram? Bloquear, somente bloquear, como uma barreira feita por Pagliuca, a festa de arromba dos jogadores amarelos.

Porém, mais impactante do que a frase esfomeada do narrador brasileiro teria sido, ou o alto-falante da CCE quase a estourar, ou os abraços e as inúmeras reprises daquele chute em todos os telões do mundo; mais impactante do que o menino, agora homem, e com os olhos marejados, a escrever as lembranças daquele dia, foi e ainda é... o zumbido. O zumbido ainda atormenta Roberto Baggio. E já são quase trinta anos, agudo e penetrante, o zumbido em uniforme de insônia, vestido de entrevista, documentários, lembranças escabrosas.

Já o menino, mesmo com os problemas da vida adulta, nenhum zumbido capta. Seus pensamentos tão somente repetem: "É TETRA!". 

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

20) Caminhar não leva a lugar nenhum

É justamente a infinitude que nos interessa ao caminhar. Não ter um destino: alguém levantando uma placa de papelão com o nosso nome rabiscado em meio a um aeroporto infestado de gente. Não ter uma chegada: um pódio dividido em três categorias de vencedores. Não ter um porto: um solo de areia, palmeiras e vendedores de coco que nos atraquem. Caminhar – desculpe a indecência – não leva a lugar nenhum.

Caminhar elide sujeito e objeto. (Talvez algum poeta tenha dito algo parecido). Caminhar é (atente ao tempo verbal) presença. Pelos menos o caminhar de que falo. Aquele sem dívidas a serem quitadas com a barriguinha. Sem pódio de chegada ou beijo de namorada. (Sim, um letrista falou). Caminhar por caminhar, para se reconhecer.

Comecei a manifestar esse caminhar quando ainda o encarava como uma maneira de economizar o dinheiro da passagem de ônibus de ida à escola para comprar cds do Pearl Jam; banda que me fascinava na adolescência e que fazia de seus discos obras-primas gráficas. Ia do Caiçara (onde ficava a escola) até o Serrano (onde eu morava) apenas guiado pelos meus pés; e, sim, tinha um destino. Até dois. Chegar no Serrano vivo a cada dia. Depois de uma semana, uma semana e meia, ter o dinheiro para comprar o cd.


Depois esse caminhar começou a surgir em momentos em que eu precisava conversar com um amigo. Aí eu convidava alguém, nós comprávamos um Chapinha e dá-lhe pernas até a Lagoa da Pampulha. Apesar de parar na Lagoa, não era em si um destino, um objetivo. O objetivo era a conversa. Tanto a caminhada como a lagoa eram trajetos.

Até que (já naquela época) as pessoas não tinham mais tempo e nem sempre havia um amigo, e aí o trajeto se transformava em companhia. E o destino, o objetivo já não tinha importância. A importância morava nos pés em movimento. Nos olhos a verem as coisas. Nas narinas a sentirem o cheiro enquanto ouvidos percebiam movimentos, sons próximos, sons distantes.

Tanto feliz como triste, caminhava. Uma vez vi um documentário na tevê aberta sobre andarilhos. Como é de costume desses programas, metade de tela era de entrevistas com os andarilhos, metade com "especialistas". E os especialistas diziam que quem tinha como objetivo na vida o andar, era alguém sem rumo. De início pensei que eu não tinha rumo nada vida e cheguei a comentar com uma amiga essa descoberta. Por fim tive certeza de que não tinha rumo na vida... e tudo bem.

O "tudo bem" surgiu com mais força depois de descobrir a meditação andando. Para os budistas da escola zen (ou chan, se for chinesa) o caminhar sem meta é uma das práticas meditativas. Eles praticam em uma sala, e dão o nome de kinhin, mas também praticam em ambientes externos. E nos últimos dias decidi praticá-la novamente. Para isso tirei da estante um livro do Thich Nhat Hanh, Meditação Andando. Desse monge, na Netflix, até um mês atrás tinha um documentário sobre seu mosteiro, o Plum Village, na França. É uma pena que tiraram; pelo menos consegui assistir três vezes.

A meditação andando contempla esse aspecto de não ter meta enquanto se caminha. Não querer destino. Essa nossa obsessão por resultados traz também muitas frustrações. Porque, simplesmente, não podemos ter tudo o que desejamos. Quase sempre não chegaremos ao pódio. O real então se mostra não é nem no começo, nem no fim, mas no meio da... (eu sei, eu sei que você já conhece essa frase, deixa eu só terminar) ...travessia.

domingo, 10 de janeiro de 2021

19) Três Corações

Prisão de Alcatraz

Há coração escondido pelas costelas como se estas fossem grades de uma prisão de segurança máxima.

Há coração menos preocupado, que sai pelo buraco da fechadura enquanto a chave da porta se perdeu nos bolsos daquele short no fundo do cesto.

Há coração que deixa a porta escancarada e se entrega entusiasmado pelo mundo como se visitasse diariamente as pontes do rio Sena.

O primeiro só sai uma horinha por dia, para tomar banho de sol. Se segura ao máximo para não falar o que pensa, afinal pode ser retalhado. E, por esconder os desejos na garganta, está sempre com azia, com dores no estômago, tristezas sem porquês e olhando para os próprios defeitos como se fossem muros gigantes protegidos por arames farpados. 

O segundo bate forte quando o narrador grita gol, mas não tão forte que vá fazer o coração vizinho bater o interfone ou aquele gancho para a polícia. Derrama seu amor por pessoas próximas, os amigos e as amigas, namorados e namoradas; pelos pais ainda derrama amor em conta-gotas, em datas comemorativas, e acredita que a queimação do estômago seja herdeira do excesso de pernil comido no natal.

O terceiro bate forte tanto na arquibancada de um campeonato de escola quanto na primeira fila de um show da Ivete. Tem sempre uma história para contar na ceia e nunca abaixa os olhos para ver se está escapando pelas pernas. Não reclama de dor no estômago, porque nunca teve, e se pergunta "o que é estomazil?", deixando todos à mesa com a goela em chamas, desacreditados que ainda existam seres que não deram nenhuma bolinha num comprimido desses.

Tem coração que consegue dar uma voltinha no quarteirão, mas de tornozeleira. Vai até a esquina mais próxima, olha para todos os cantos, assustado, com medo de que o descubram fugindo, volta rápido para dentro de si, passa a noite inteira com insônia, dorme duas horinhas e acorda amedrontado com a autocobrança enroscada na própria canela.

Tem coração que dorme uma noite de sono mais ou menos tranquila, e só começa a bater forte quando tem sonhos com os pais em diversas situações, tanto ruins como boas. Acorda com a ajuda do despertador entre 9 e 10 da manhã, ainda sonolento, e chega quase sempre atrasado ao trabalho, com as desculpas querendo sair pela boca, mas controlada no centro da garganta.

Tem coração que dorme só de encostar a orelha no travesseiro. Acorda às oito horas, longe de qualquer ressaca moral, pronto para ir ao psicólogo uma única e última vez, só por curiosidade, já que pensou seguir a profissão de psicanalista – afinal gosta de gente. 

quinta-feira, 9 de julho de 2020

18) Suponha que...

Suponha que você more no bairro Serrano, que fica na região noroeste de Belo Horizonte, coladinho à Contagem, bem distante do centro de Beagá, e tenha um irmão mais velho.

Este irmão gosta de ler. Bem e-v-e-n-t-u-a-l-m-e-n-t-e, mas gosta. E de quinze em quinze dias ele leva um livro para casa, a mesma casa em que você mora.

Suponha também que você goste de ler, mas suponha que, diferente de “eventualmente”, goste bastante de ler. E até aí você sabe que existem livros. Eles ficam ou nas livrarias ou na biblioteca da sua escola (trancada na hora do intervalo). Na sua casa não costuma ter livros.

Moradores do bairro Serrano, na Região da Pampulha, reclamam de ...
Mítico Bairro Serrano visto de cima.
Aí você pergunta para o seu irmão onde é que ele conseguiu aquele livro do Stephen King. Ele responde que foi lá no Centro Cultural Pampulha, no Urca.

Você sobrepõe a suposição (logo, muito acima) e se certifica que o Urca, como Contagem está para Belo Horizonte, fica do ladinho do bairro Serrano; é descer a avenida principal até chegar na ponte do córrego e atravessá-la. Melhor do que tudo isso, você já tem 18 anos, portanto, já pode criar uma ficha (só sua) na biblioteca do CCP.

De identidade e comprovante de residência (a mesma residência do seu irmão) em mãos, você desce a avenida, caminhando até a ponte, atravessa a ponte, sobe um pequeno morro (pequeno para mineiro) e se depara com o Centro Cultural. Ali no início da aparição, logo depois da porta de metal e vidro, diante dos seus olhos contentes: a biblioteca.

Mítico Centro Cultural Pampulha, no Urca.
Três ou quatro prateleiras pequenas, duas mesas baixas de centro e uma mesa alta com uma pessoa sentada em uma cadeira (você se lembra) que deveria ser (e era) a bibliotecária.

Vim fazer a carteirinha pra pegar livro emprestado, você diz.

Carteirinha não tem, é apenas um registro num computador branco-amarelado de monitor gigantesco (afinal estamos no início dos anos 2000), mas serve.

Pode sentar, deixa eu ver aqui seus documentos, responde a bibliotecária.

Você se senta e se sente importante durante um tempo. Responde à bibliotecária as dúvidas dela, como o CEP correto, o número do telefone fixo. Em menos de dez minutos, quiçá menos de sete, você tem um registro. Melhor do que isso, já pode levar livros para casa.

Suponha que naquela época você ainda estivesse descobrindo o que ler, os autores que fariam a sua cabeça, os gêneros textuais que melhor narrariam seus desejos, os mundos que perfeitamente se encaixariam no seu mundo. Para alimentar todo esse universo, a biblioteca do CCP, bem pertinho da sua casa, era mais do que uma guarnição, era um prato cheio. Do típico arroz e feijão ao excêntrico sushi, quer dizer, de autores já conhecidos e amados por você, como Luís Fernando Veríssimo, Rubem Fonseca, Henfil e companhia, até aqueles que você se apaixonaria, como Hilda Hilst, Borges, Kafka etc.

Dessas experiências de leitura, de senso de comunidade, de cultura compartilhada, de trânsito de um bairro a outro, de visões e aprendizados, de saber, e esse saber como significado de “existem bibliotecas além da biblioteca da minha escola”, levaria você a frequentar o CCP de forma assídua, mas o anexo da Biblioteca Luiz de Bessa também, além das dezenas de bibliotecas da UFMG, do MIS Santa Tereza.

E em qualquer lugar que você venha a morar em Belo Horizonte, depois de já ter dado uma voltinha para conhecer o bairro, tomar um sorvete e sentar na praça, você vai se perguntar: será que tem uma biblioteca por aqui?

Suponha que Borges uma vez teria dito que o paraíso seria uma biblioteca. Suponha mais uma vez, então, que o paraíso fica logo aqui, na Terra, na rua Expedicionário Paulo de Souza ou na Rua da Bahia ou na rua Mármore ou melhor…

Nem suponha.

segunda-feira, 25 de maio de 2020

17) As chaves do entendimento abrem as portas da percepção?

No longínquo terceiro ano do ensino médio, 2005 dC, um amigo chamado Renato Amaral me emprestou um disco do Radiohead, o Hail To The Thief, e com ele tive uma linda viagem rumo ao desconhecido.

Hail to the thief ou Viagem ao desconhecido (com volta, só não sei pra onde)

Naquela época ouvia música de um jeito diferente, um jeitinho que tem voltado depois de uma década desatenta e negligente, uma maneira de ouvir com atenção, banda a banda, disco a disco, música a música, sem pressa, saboreando. Não existia esse lance de ouvir um single ou músicas picadas. Para se conhecer e saber se a banda era boa, precisava ouvir um disco inteiro, dois, três, toda a discografia. 

Ali, com os meus 18 anos, lembro de ouvir música ao acordar, colocando um disco pra tocar no micro system enquanto me aprontava pra aula. Esse disco tinha quer ser curtinho, de trinta minutos, no máximo. Depois, ouvia alguma coisa à tarde, geralmente bandas que mais amava porque sobrava tempo, podia dançar no quarto, tocar bateria imaginária, e depois, antes de (ou para) dormir, ouvia mais um disco. Era então a hora do Radiohead. 

O micro system dividia espaço comigo na cama e, aos primeiros sinais do meu cochilo, eu metia o dedão no off e colocava o aparelho pra desmaiar também. 

De volta ao passado: saco o cd do saquinho (cd pirata), abro a tampinha do aparelho após acionar um botão côncavo, insiro – com a habilidade de um sommelier – a bolacha espelhada dentro do micro system, abaixo a tampa, dou o play. Toca a primeira música, que eu descubro qual é lendo a parte de trás do encarte (ou o que havia de encarte em um cd pirata), 2 + 2 = 5. Começa lentinha, lentinha, com aquela voz miúda e aguda (nem tão miúda e nem tão aguda como a da Sandy, mas chorosa), vai crescendo, crescendo aos pouquinhos, estoura, plot twist, musicão. Um rock, com elementos, melodias e timbres estranhos, mas um rock, guitarra e tal. 

Ainda estou acordado (um ótimo sinal, pois foi alguns anos depois que começaram as minhas insônias, que já estão se despedindo da minha vida, graças), a segunda música passa a tocar. Ainda não fazia ideia, mas seria uma das minhas preferidas da banda. Sit Down Stand Up também começa lentinha e vai crescendo, o crescimento é mais sutil que a anterior, degrau por degrau, mas de elementos mais estranhos, melodias e timbres que se misturam com música eletrônica. Não é um rock, o que é bem estranho, afinal eu deveria ouvir apenas rock, em 2005 sou um rockista, pô. 

A terceira, bem lentinha, e continuaria assim, beeeem len-ti-nha. Dormi nessa música.


Passei uma semana dormindo nela, como um fóbico passeando sobre o viaduto Santa Tereza, não conseguia atravessar a tal ponte. Até que desisti – que banda difícil. Devolvi o cd pro maninho Renato. 

Semanas depois apareceu um outro amigo, o da rua de cima, o Magrelo, que copiava vários discos, praticamente todas as bandas de rock que existiam, ele tinha tudo. Esse mesmo amigo me emprestou toda a discografia do Pearl Jam, que viria a ser a minha banda preferida até os vinte anos. Ainda acho o Riot Act o melhor disco, mas acabou ali. Esse amigo da rua de cima foi também quem me emprestou o The Bends e o OK Computer, e falou, se você não gostar do primeiro, tá tranquilo, mas se não gostar do segundo, acho que você nunca vai gostar da banda. Qual a banda? Radiohead.

Ouvi o primeiro, o The Bends (o segundo da carreira deles). Um disco bem simples com arranjos magros, de algumas canções que lembravam o U2. Gostei. Ouvia sempre, era calmo. Levei até pro Lucas ouvir e ele pontuou a semelhança com o U2. Como aquilo podia ser Radiohead e aquele outro disco também? O Pearl Jam tinha me ensinado sobre experimentação em alguns discos como o Vitalogy, No Code, ou em como bandas podem se modificar conforme os anos passam, mas me ensinara pouco. Até que deixei de lado o The Bends e fui atrás de encarar o outro disco, o OK Computer. Sem imaginar a pedrada que viria.

A primeira pedra caiu do espaço, costumam chamar isso de meteoro: “Airbag”. Achei foda, timbre bem louco da guitarra no riff principal. Ouvi a segunda música e minha cabeça saiu da Terra e foi para o espaço, explodindo. Achei o melhor disco do mundo por muito e muito tempo. Claro, depois de ouvir bastante esse disco, ver todos os clipes, ler sobre a banda, quis ouvir os outros. É aí que o Renato retorna à história, pedi a ele o Hail To The Thief de volta. Ouvi… ouvi tranquilo como uma nave. Entendi (esse verbo complexo) o disco, não dormi em nenhuma música e ainda permaneceu como o meu disco favorito da banda. Depois vieram outras pedradas, Kid A, Amnesiac (discaço com sobras da gravação do Kid A). Ouvi a banda por alguns anos até aparecer o In Rainbows, o primeiro disco deles que eu vi eles lançaram e que foi “doado” pelos integrantes da banda ao público. Um ótimo disco. Ouvi menos do que os outros, talvez minha cabeça já estivesse se encaminhando em direção a outras searas. Até que chegou o King Of Limbs. Ouvi uma vez ou duas; não desceu, achei um disco preguiçoso, parecia que a banda estava no fim, houveram rumores, Thom Yorke já estava lançando disco solo e disco com o Atom. Quando chegou o Moon Shaped Pool eu já não tinha qualquer interesse na banda, ouvi uma música ou duas. Pareciam músicas covers do Radiohead, vai ver eram. Essa mesma impressão eu tive com os novos discos do Pearl Jam e do Red Hot (que hoje considero uma das bandas mais chatas que existe, e eu era muito fã na adolescência). Não desmereço nenhuma dessas bandas, apenas não são mais relevantes para mim neste momento, mas foram demais, grandes amigas. Enfim, foi depois de algum esforço que minha cabeça aceitou o Radiohead, e eu fui capaz de compreender a sua música.

Quando a sua cabeça aceita algo? Olha, sempre tentei ler Dom Quixote, sempre achei dificílimo. Nunca entrava na minha cabeça, larguei inúmeras vezes depois de “ler” as primeiras páginas. Dias desses peguei só pra passar o tempo enquanto não começava a novela (dei pra assistir na quarentena). A leitura simplesmente fluiu e está fluindo. Depois de algumas tentativas frustradas, a leitura desceu redonda (não como a Skol, mas como a Heineken) como se eu tivesse compreendido, absorvido, psicografado o livro. Essa absorção tem algo de maior do que o simples entender, é outro entender, é a cebola interminável. Essa nova leitura me induziu ao uso de chaves de entendimento, saca só. Usei uma das chaves para entender que o estilo pomposo do texto sempre teve a ver com a paródia de romances de cavalaria, fazia parte do humor do livro, Quixote é um livro de humor. Essa era uma das chaves do entendimento. Talvez a principal, ou a necessária. A chave que eu precisava para abrir a pesadíssima porta verbal. Com o tempo a gente vai se parecendo com leões de chácara, portadores de chaves de leitura; a paciência e a persistência, inclusive, são chaves de ouro. 

Então, quando um livro, um disco, um filme te aceita? Quando você pode entrar? Quando ele entra em você? O meu diretor favorito se chama David Cronenberg. E um dos meus escritores favoritos se chama William Burroughs. Em 1994, Cronenberg fez um filme inspirado no livro Naked Lunch, do Burroughs – pra quê, preciso ver esse filme, provavelmente foi o que eu disse. Fui assistir e achei dificílimo. Não entendia o que acontecia, pra onde a história caminhava, eu me encontrava perdido como se fosse Perseu sem o fio de Ariadne. Achando geniais a fotografia, a trilha, os efeitos visuais, mas a história me cansava porque simplesmente não a entendia. Abandonei várias vezes o filme. Até que um dia voltei a assistir. Tem isso também. Por que assistir de novo se não colou da primeira vez? Bem, não sei. Talvez a gente tenha que usar as chaves, elas não podem ficar no bolso. Isso até me lembra um conto da Lygia Fagundes Telles, acho que se chama Os Objetos, não sei, só sei que em determinada hora do conto não me lembro se o narrador ou o personagem (ou seria narrador personagem?) se questiona – uma faca só tem função de existir se cravada no peito. Quis dizer o seguinte: enquanto a faca está adormecida no faqueiro, ela não existe. Uma chave no bolso não tem por quê. Uma chave para abrir uma leitura é uma chave mestra, uma chave que funciona, que encontrou seu lugar no mundo.


Forgotten Cronenberg: Naked Lunch - Byl Holte - Medium
Naked Lunch, o filme. Queria essa máquina.

Depois de usar a chave da insistência, descobri a história do filme: simples, com um fio narrativo tranquilo de acompanhar, as paranoias que se bifurcavam do centro da trama sempre retornavam à ela, à espinha dorsal da história. O filme então desceu como mel e continuei, e continuo durante esse anos todos, tendo o Cronenberg como o meu favorito. Parece que todas as minhas chaves cabem perfeitamente nas suas portas de percepção, ou seus filmes atravessam facilmente as minhas portas mentais. Quais chaves você carrega no bolso? Quais portas precisam ser abertas?

quarta-feira, 20 de maio de 2020

16) O vício que não me destruiu ao longo dos anos

Antes de colocar essas palavras em ordem, estava lendo um romance de Luiz Alfredo Garcia-Roza, Um lugar silencioso. Mergulhei na empreitada faz uns quatro dias. Já tinha o livro na prateleira e ensaiei algumas vezes o mergulho, mas pendurei a toalha outras tantas vezes, antes de cair na água, adiando o nado para a época de quarentena (não que eu soubesse que iríamos cair nesse poço).

Já dentro do livro, sem conseguir largá-lo por muito tempo, pipocou na minha cabeça um pensamento precedido de uma sensação, a de prazer. Ultimamente flashback é o que minha cabeça mais tem gostado de usar para contar as suas narrativas absurdas. E são com esses recursos que tenho me deparado diariamente com comparações entre o meu passado e o meu presente. A reconstrução contínua da minha memória tem criado déjà-vu de longas distâncias espaço-temporais. Posso explicar melhor.

Flashback: antes das palavrinhas rechearem este texto, estava na rede lendo o Garcia-Roza, sentindo prazer pela leitura, querendo ler mais, ao mesmo tempo guardando para não faltar no futuro, e tudo isso me remetendo às primeiras memórias de leitura da adolescência; olhando para o texto corrido e para o número de páginas, fascinado ao descobrir a cada parágrafo lido que aquele bloco de papel impresso chamado livro me dava mais e mais prazer conforme eu ia se apossando dele. Uma sensação idêntica àquela experienciada na juventude.

Ao longo dos anos esse sentimento foi se intensificando. Hoje tenho pelo menos dois livros para me fazer companhia durante o dia: um para a tarde, outro para antes de dormir. Às vezes mudo os livros de turno, às vezes coloco mais um livro na conta. Tornou-se um vício que não me destruiu (nem parece que vai me destruir) ao longo dos anos.

Time Enough at Last: “The One That Haunts People” | Shadow & Substance

Abaixo um diálogo entre o gerente do banco e o funcionário Mr. Bemis,
em Time Enough At Last.



"You, Mr. Bemis, are a reader!"
"A reader?"
"A reader! A reader of books, magazines, periodicals, newspapers. I see you constantly going downstairs into the vault during your lunch hour".
O kindle entrou na minha vida tem também algumas semanas. Confesso que ainda não me entreguei ao aparelho. Foi útil para ler alguns artigos sobre cinema de animação, fotografia, mas com a literatura — e ainda não sei o porquê — não foi para frente. Li alguns capítulos de Crime e Castigo, me pareceu uma tradução ruim, então deixei de lado. Agora baixei Vidas Secas e alguns livros do Philip K. Dick; assim que a empreitada Garcia-Roza terminar quero cair matando para despachar esse ranço (se é que tenho) com o kindle. Na real nem sei se é ranço. Acho que é apenas um hábito, uma maneira de ler, um contato que falta com o físico, com a folha de papel, a diagramação, coisas que sinto falta. Talvez a noção de estar lendo. Quando estou lendo no computador, estou lendo mas como se não estivesse; não me pergunte por que sinto isso, depois penso sobre. Inclusive não faz tanto sentido: você sente que não está lendo este texto? Pois é, ao menos que você tenha ele impresso diante dos olhos, não passa de um texto digital. Ou talvez tenha a ver e nem sou eu quem estou dizendo, mas eles. 

Voltando ao prazer. Fiquei pensando nessa coisa da leitura do livro ainda suscitar essa experiência prazerosa depois de tantos anos. Confesso que me sentia anestesiado pelas incontáveis possibilidades de entretenimento (considero o livro entretenimento), computador, celular, séries, filmes, youtube etc. A leitura voltou com muita força e o desejo de escrita também. Às vezes precisamos de um tempo, vai ver é só isso. Estou encantado com amigos que não liam com frequência falando dos livros que têm lido nessa quarentena. Gente que engole 400 páginas em pouco mais de uma semana e vem dar o retorno da leitura com a maior voz de felicidade do mundo. Tenho acreditado nelas, na leitura, nesse prazer que nos alegra ao longo dos anos. 

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

15) Klebão, o pontapé narrativo

Persigo a escrita como um fanático persegue o clube do coração. Desde os 12 anos, época em que minhas canelas atingiram o mais alto patamar em finura, levo isso a sério, até porque não existiu escolha.

E também foi com 12 que tive na sexta série um severíssimo professor de geografia. Alcunha do dito: Kléber. Altura, peso e fisionomia do dito: um metro e muitas outras medidas, uns setenta quilos e muitas outras gorduras, óculos-barba-nariz.

Os alunos, pelas costas (pela frente é que não seria), chamavam-no de Klebão. Não me lembro de ter visto alguém conversar em sala ou ir contra aquele professor; uma braveza que se impunha, expelia medo, fazia menino mijar pelas pernas e depois morrer de vergonha perante os coleguinhas de sala.

Em determinado dia, o Kléber deu pra gente um dever de casa para ser entregue na aula seguinte. O para casa era: criar uma narrativa que recontasse a chegada dos portugueses no território brasileiro.

Nunca fui de fazer para casa ou sempre fiz mal feito, mas as redações (as literárias) mexiam com a minha cachola. E estava ali uma oportunidade para apresentar aquilo que eu realmente tinha apreço e prazer em produzir: um texto narrativo.

Não me lembro como se deu a escrita do meu texto, se teve pesares, alegria (penso que sim), mas no dia seguinte ele se encontrava prontinho, em papel almaço, pronto para ser entregue ao ríspido professor.

A aula foi assim: todos os alunos em sala e o professor Kléber em riste próximo ao quadro negro. Sua voz grave ecoando para a turma: então, quem fez o dever de casa?


Escultura do filme "Darkness, Light, Darkness", de Jan Svankmajer.
Tem a ver com o texto? Não, mas eu gosto.

Como sempre fui um aluno "na minha" (pelo menos nessa segunda sexta série, já que a anterior eu tinha sido o capeta), continuei "na minha", esperando que algum aluno mais responsável, mais nota 10 — afinal eu fui um típico aluno nota 7, muitas vezes 6 —, levantasse a mão. Ninguém. Ninguém mais umas duas vez. Pra quê? Enchi meus pulmõezinhos medrosos de coragem e disse que tinha feito o tal dever de casa. Não deu outra: então leia.

Igualzinho um fusca custoso, fui lendo. Aparentemente tossindo, com certeza engasgando, fui lendo. Realmente me lembro um pouco do texto. Havia uma discussão entre o capitão e um de seus funcionários sobre a possibilidade de visualizarem terra alguns quilômetros à frente. Mal sabia que quem estaria embarcando e encontrando um lugar no mundo não eram os navegantes, mas eu mesminho.

Ao fim do engasgo, do suor frio, da leitura, o professor Kléber, no alto de sua voz grave e de sua testa franzida, largou de ser assim daquele jeito duro, deixando o cabelo da geral de pé quando não dispensou elogios sobre o texto. A real é que foi uma rasgação de seda. Uma seda que eu jamais tinha tocado. Uma cena para jamais esquecer, vinda do genioso professor Klebão. Com palavras novas para a minha cabeça: estrutura, narração, diálogo etc.

Daquela sexta série eu me lembraria do braço quebrado do Adam, das idas à biblioteca para pegar livros do Veríssimo e do Fonseca, dos amores platônicos, e claro, do professor Klebão, com aquele seu jeito, incentivando um escritor novato.

A partir dali fiquei à vontade para desenvolver outras narrativas que culminariam n'As Mais Velhas Histórias de Amanhã. Papo pra mais tarde.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

14) Um Jeito de Fazer Música

1. A chuva trouxe a água e levou a minha internet. Como sou desesperado sem internet. Assim que a conexão cai, começo a pensar no que fazer.

2. Minha primeira atitude é dar uma volta pela casa, sem destino certo, talvez abrir a geladeira, fitar as prateleiras vazias, a maçã murcha, o galão de água com cheiro de gengiva.

3. Depois vou para o violão. O violão funciona para mim como um refúgio, o meu não-lugar, o meu espaço no tempo. O tempo restaurado.

4. Começo por balbuciar alguns acordes, umas melodias na garganta. Vou fuçando as possibilidades harmônicas, rítmicas, melódicas, até encontrar algo que nunca tenha me visitado antes.

5. É quase de praxe começar pelo acorde de Lá menor. É um dos meus vícios. Curto também o Ré menor. O Si menor. Caso não seja menor, gosto do Sol.

6. Quando pinta uma melodia na minha garganta, que escape ao baixo do acorde, enxergo ali a porta de entrada; tenho nas mãos as chaves, ou as cordas do violão, ou cordas vocais, e minha cabeça vai se chafundando no inconsciente, nas ideias e assuntos que eu gostaria de falar (que eu nem sei, até aí, se gostaria), a melodia e o ritmo também darão o tom do discurso: pode ser que eu fale sobre mim, sobre algo que tenha acontecido comigo, sobre alguém, uma situação, uma crônica.

7. Cada vez mais busco a simplicidade, as palavras que veem sem suor, sem firula, o texto completamente oral, assim como as pessoas se comunicam.


8. Encontro a letra, ou melhor: o primeiro verso. O primeiro verso dá o tom. A partir daí construo os próximos. Dois acordes, três. Raramente, quatro. Tenho feito músicas muito curtas, de 1 minuto, 30 segundos. Às vezes três versos são suficientes, dois. Um verso potente, caso aconteça, pode ser o ideal.

9. Daí repito essa estrutura por uns 10, 20 minutos; deixando que meu corpo, meus pensamentos, a levada, o ritmo, a ocasião e o acaso decidam para onde a música deva ir. Às vezes pinta um outro verso, um novo acorde, uma mudança de tom.

10. Depois da música pronta, gosto de pensar no próximo passo: tipo, o que farei agora?

11. Gravar, uai. Utilizo um microfone ZOOM, desses de gravar cinema. Gravo direto nele, cantando todas essas repetições, no violão, ou no tecladinho Kashima, 10 minutos de gravação, dela usarei apenas 1 minuto.

12. No meio do registro, repetindo a música incessantemente, começo a me sentir mais à vontade, solto, relaxado — é mais do que necessário para alguém que não tem costume de cantar e desafina com a mesma facilidade que formigas têm de invetarem filas.

13. Recorto a melhor parte, insiro num programa de vídeo — tenho usado há mais de 4 anos o Sony Vegas Pro 11. Lanço a música na track, caço elementos na internet (ou que já estejam no meu pc; coisa que acontece se a conexão tiver desabado) que corroborem com a minha concepção de música Alonima. Os elementos passam por efeitos sonoros de filmes de ficção científica e terror, falas de monstros, articulações robóticas, sons de naves espaciais, coisas banais como passos de caminhada, aberturas de portas, barulhos de ventos, pios de pássaros. Daí crio uma mix bem simples, tosca, DIY, desses elementos.

14. Penso no clipe; ele deve ter no máximo 1 minuto já que a minha intenção é postá-lo no Instagram. Posso seguir dois caminhos para fazê-lo. O primeiro deles é pensar na história: como será, se uma narrativa linear, tal, e a partir daí tentar esboçá-la numa espécie de pré-roteiro, já pensando em como tudo se resolveria com as ferramentas que tenho — inclusive bastante precárias, mas que dou o maior valor por serem os principais responsáveis pela linguagem.


15. A segunda opção, e a que mais tem dado certo, é coletar material durante os dias, sem pensar muito que destinos eles terão. Pode ser uma filmagem enquanto estou no ônibus, uma leitura de um livro, um desenho criado, filmagens e fotos caseiras.

16. Tendo esses elementos em mãos, começo a criar o vídeo sem saber exatamente o destino, apenas entro no banco de dados Alonimo, coleto os materiais que juntei durante a vida, lanço-os na track de vídeo do Sony Vegas, vou trabalhando as imagens.

17. Existe um padrão de títulos com três letras, que sempre acompanha o vídeo, além do padrão de tempo, um minuto de música e vídeo, no máximo, e o padrão de elementos eletrônicos que mencionei antes, e agora, uso bastante os mesmos efeitos combinados com a cor natural e a estrutura também natural dos elementos coletados. Esperando que eles deem o tom do produto final.

18. Renderizo e já subo para o Insta, caso a internet venha à tona, e costuma acontecer. Subo independente da hora e do dia, geralmente na madruga.

19. A conclusão do trabalho me traz alegria e também uma pequena tristeza, pois o lance é o processo; o processo gera um tesão quase incontrolável, onde só bebo água, canto, toco, gravo, edito, pesco alguns biscoitos. Mas o incansável está sempre à cata de laçar outros desejos, músicas, textos, filmes, orgasmos. 

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

13) Júpiter Maçã ou respeito próprio

Estava eu assistindo a um programa pelo Youtube, um programa já extinto, chamado Musikaos, exibido pela TV Cultura em passado recente, apresentado por Gastão Moreira, jornalista cultural de quem eu tenho grande admiração.

Esse moço é o Júpiter.
Gastão, nos dias atuais, toca um canal no Youtube chamado Kazagastão, o KZG. Foi em uma das playlists do canal — ou nos vídeos que o youtube relaciona, não lembro muito bem — que descobri um arquivo de vídeo do Musikaos em que Júpiter Maçã, ou na fase artística na qual foi gravado o vídeo, Jupiter Apple, apresentou-se com duas músicas e deu uma breve entrevista. E foi nas poucas palavras ditas pelo músico, e não nas cantadas, que me liguei, a ponto de pensar sobre aquilo a madrugada inteira, inclusive depois de acordar.

Quer dizer, algo que me colocou a escrever, sentar a bunda e escrever sobre. O lance foi simples, entre a primeira música e a última, pois só tocaram duas, Gastão partiu para a entrevista munido de pequenas perguntas (em sentido quantitativo) e obteve várias grandes respostas (em sentido qualitativo). Em uma delas, que foi mais ou menos assim — Júpiter, você toca vários instrumentos, domina o contrabaixo, gravou um disco inteiro sozinho, você teve professores ou sempre foi um autodidata?

Eu sempre soube de Júpiter como um autodidata, fiquei esperando a sua resposta, seria sucinta, "Sim, sou um autodidata", mas ele respondeu outra coisa, com aquele sotaque gringo e gaúcho — Não, tive professores. John Lennon, Harrison, Syd Barret.

A resposta arrancou sorriso meu e do entrevistador em planos temporais distintos. Para selar com cera vermelha, Gastão levantou:
— Você é um cara que teve muitas fases, cantou blues, folk, rock and roll, cantou em português, agora em inglês, você leva a sério essas diferentes fases, não é?
Júpiter arrematou:
— Se eu levo a sério as minhas fases? Sim, eu me respeito.

Discaço.

E é este o ponto. Respeito próprio. Essa coisa do, Sim, eu me respeito, me fez refletir tanto sobre o respeito próprio, que... Putz. Algumas poucas e insistentes perguntas povoaram minha cabeça: quando você deixou de fazer algo que queria por algum motivo, por exemplo, por medo? Por julgar não ter tempo. Quantos poemas bons você deixou de criar ou letras de música porque não teve coragem de dizer o que pensava? Por que se preocupou com quem leria, com a cena musical da sua cidade? Quantos livros engavetados. Quantas vezes foi omisso a ponto de não dizer aquilo que pensa do mundo, dos parentes, dos amigos, da televisão, dos seus amores? Tudo por desrespeito próprio, eu aposto.

A arte do respeito próprio exige confiança. Desafio, portanto, dos mais difíceis. Não ceder. O simples gostar do que você gosta, relacionar-se com quem você gosta. Estar próximo e trabalhar para aquilo que você ama. Errar. Considerar suas motivações, seus pensamentos, seus desejos. Aqueles mais absurdos. Suas fases, a infância, a adolescência. A raiva, o ódio, o amor, a carência, o ciúme. A paranoia.

Júpiter manda joia.

Escrevo isto daqui enquanto me vem toda a discografia do Júpiter. Uma obra de liberdade, de ambição. "Sim, eu me respeito". Gastão anuncia a banda pela última vez naquele dia, Júpiter toca a última música, então do trabalho posterior, o Hisscivilization, e deixa um cara em Belo Horizonte sem dormir.

sábado, 2 de dezembro de 2017

12) A Fila

Saídos do bairro construído pela Empresa, os funcionários vêm de longe, adentram a recepção em fila indiana. Uma boneca inflável os recebe, com a frase eletrônica: boa-vinda, funcionários! Então respondem em uníssono: boa-vinda, funcionários! Vocês foram contratados, podem, por favor, se dirigir à sala dois. Podem, por favor, se dirigir à sala dois, em acordo respondem. Na sala do cadastro, encontram um robô de lata. Em uma frase curta com um verbo no meio, o robô cadastra e anota características de todos os funcionários, esclarece deveres e direitos perante a Empresa. O robô termina seu discurso com o dedo direcionado à terceira e última sala.


Ainda em fila indiana, os funcionários penetram a sala do Chefe. Sem qualquer menção de boas vindas, fala eletrônica ou cadastros, o Chefe pisoteia os funcionários da Empresa. A porta dos fundos é aberta. Sem que voltem para o bairro de mãos abanando, carregam bolsas azuis contendo quilos de desaforo e pequenos brindes de utilidade cotidiana: escovas dentárias transmissoras de cáries e tártaros; sabonetes brotadores de acnes e espinhas; pentes que passam caspas e piolhos.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

11) Caronas da UFMG ou Elivelton*, o cara de óculos do carro vermelho

Ele apareceu de carro vermelho. Coisa ainda mais rara: em duas sinalizadas minhas, lá estava o carro vermelho encostando. Antes de eu abaixar a cabeça e falar para onde iria, cumprimentei o cara com um beleza. Ele falou, entra aí. Pra onde cê vai, me perguntou. Pra praça de serviços. Ok.

É, esse carro é verde. Nada a ver.

Uma garota aprontava-se para entrar no carro conosco, quando ele disse que não cabia. O banco da frente é difícil de descer, só cabe um, infelizmente, emendou.

Pelo caminho de pedras entre a Faculdade de Educação Física e Terapia Ocupacional, em que os carros mal passam e se ouve mal quem fala enquanto guia o volante, foi que o Elivelton passou os pneus e também a contar a história de uma outra carona que ele havia dado. 

— Então, esses dias, coisa de uma semana atrás, eu tava subindo aqui por esse caminho e vi um cara correndo apressado, muita pressa, meio gordinho assim, sabe? Parei pra perguntar... ou, cê quer uma carona? Não é que o cara me olhou e deve ter pensado, putz, esse cara adivinhou!

Contando alegre como um lagarto ao sol. Eu ouvia sua história pelos cotovelos. Ele prosseguia através dos óculos.

Tenho a impressão que este é mais verde ainda.
— Pra onde cê tá indo, o cara me perguntou, tô saindo pela Carlos Luz. O cara disse que tava atrasado pro trabalho, que trabalhava na Gontijo. Falei pra ele que ia passar por lá. Cê tá brincando? Sério. Nossa, moço, cê pode me deixar lá? Claro. Não é que deixei o cara lá? Na porta do trabalho dele?

Deixou. E pelo visto como se tivesse nascido para tal.

— Quer dizer, o cara tava atrasado, não sei, tinha perdido um ônibus, o segundo ônibus tinha estragado, e ia subir essa avenidona toda aqui, correndo. Apareci na hora certa. No lugar certo. Acabou chegando antes do previsto e do imprevisto. Muito bom, muito bom.

E riu.

Assim que ele apertou o ponto final da história com esse duplo "muito bom", as pedras deram o tchau, e agora eu poderia ouvir de forma clara outra contação.

Me divertia com o Elivelton, ele, porém, parecia não gostar do asfalto, não para contar histórias.

Do bandejão até a praça de serviços o silêncio instalou-se no carro como se os vidros não estivessem nas portas mas entre nós. Paramos na praça. Agradeci. Ele deu um tchau agradável.

Outra história não viria. A que ele me contou correspondia à história-síntese, que talvez conte a todos que junto dele atravesse o caminho das pedras.

*nome fictício

terça-feira, 24 de outubro de 2017

10) Jota Jota e a bicicleta

Fuçando os meus parafusos e perguntando aos funcionários que trabalham na minha cabeça (sei que vocês os conhecem, um misto de arquivistas desorganizados e biógrafos auto-ficcionais), fiquei a par de saber o que é uma bicicleta.

"Senhor Diogo". Os meus funcionários me chamam assim, uma herança da hierarquia inútil. "Uma bicicleta é um veículo de duas rodas, por isso tem esse 'Bi'". Depois dessa pontual explicação, eu entendi, e não carregava mais dúvidas na minha garupa mental.


O que os meus funcionários não sabiam dizer é, quem ou que é Jota Jota? Para esse entendimento deixei-os de folga curtindo uma praia no sul da Bahia.

Conheci Jota Jota, ainda sob a alcunha de Geraldão, em meados de 2005, não sei.

Eu tinha uma banda, Playmobils, ele tinha outra, 4annex. Num dia louco aí, a gente dividiu o palco de um comício de um então vereador cego daqui de Beagá.

O 4annex era uma banda de hardpunkcore, sei lá, essas conjugações aí que o pessoal inventa, que tocava canções autorais em inglês. Tocar canção autoral era uma puta responsa. Eu não conhecia três ou quatro bandas naquela época, com uma faixa etária dos músicos entre 15 e 17 anos, que fazia isso. Certo, mas o que deixava o pessoal de cabelo com gel, era o tal do baterista. O baterista vocês já sabem, o baterista deles era, óbvio, o John Bonham. 


Mentira, Geraldão é o seu nome.

O Geraldão tocava como toca alguém que é Keith Moon e Dave Grohl ao mesmo tempo, mas com precisão. A precisão era incrível. Depois de um tum-tá-tum-tá veloz, ele conseguia, com a tranquilidade de um gorila, cair no mais suave relaxamento sonoro. Aliás, o que eu me lembro do 4annex é essa justaposição entre o frenético e o calmo, muito pelas baquetas do Geraldão.

O tempo passou, as crianças cresceram, o vereador cego virou deputado, mas não recuperou a vista. Fui trombar com o Geraldão coisa de 7 anos ou mais depois. E desse encontro eu me lembro. Ele sentou na batera do Castelinho, a Pretinha (antiga vocalista do 4annex) sentou num banquinho com o violão nas mãos, e eu, de baixo em riste, suspendi os ouvidos, pronto, daí sapecamos um som.

Depois eu fui ter uma banda com a Pretinha, e o Geraldão foi ter uma banda com o Bil (que tocava comigo nos Playmobils e que também faria parte da banda com a Pretinha).

O segundo encontro antológico diz respeito a um macarrão com camarão e uma garrafa de Black Label. 

Meu primeiro contato com o uísque foi bêbado, vomitável, mas bastante agradável. Descobri uma bebida que me deixava com o cérebro aceso. Ótima pra refrescar as piadas inteligentes. Dali pra frente, junto da Paulinha, eu teria pessoas com quem trocar uma ideia fina e amaciar uns gatos.

As pessoas também chamavam o Geraldão, vulgo Tiago, de J.J., no inglês. Eu abrasileirei pra Jota Jota, desde então é assim.

Agora a bicicleta e o Jota Jota se unem, pois o último me presenteou algumas vezes nesta vida curta que chega aos trinta anos. Entre camisas, bermudas, colagens, baralhos, videogames e chorume pra fazer planta crescer, ele me veio dessa vez com uma bicicleta: toma, Aloni, é sua.

Descobri que o pneu dianteiro, visivelmente furado, enganou o meu modo de ver as coisas, pois furado ele não estava. Demorou pra encher de tão vazio, mas serviu como cheio quando precisei ir até a Igrejinha dar uma volta hoje à noite.

Fui cauteloso, meio pelas beiradas como o pedal esquerdo que está pela metade.

Durante a pedalada saquei que se corre realmente daqui da república onde moro pra lá, não o contrário, já que esse é o sentido do vento, na volta eu o senti contra mim, e senti sozinho pois ninguém apareceu pela minha traseira.

Volto a pedalar todas as noites, esse álibi, substituto também saudável de minhas caminhadas a esmo por Beagá. Obrigado, Jota Jota, o presente com dez dias de antecedência e ainda na pós adolescência.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

9) Biscoito ou Bolacha: A Quarta Guerra Mundial

1. Passei a receber jornais futuristas em 2009, quando visitei o ano de 2037 pela primeira vez.

2. E os jornais sobreviveram ao tempo?

3. Sim. São um pouco diferentes dos atuais. Não há quem os escreva. Eles apenas registram os passos de todos e todas as coisas.

4. Estou lendo um pós-apocalíptico que mostra como se iniciou a 4ª Guerra Mundial.
5. Não muito diferente de todas as outras guerras, a quarta se deu por uma trivial disputa ideológica. 


6. Qual o termo correto de um suposto alimento: "Biscoito" ou "Bolacha"?

7. Quem está duvidando da minha visita ao futuro (não da Guerra, já que é óbvio que guerras sempre existirão) pode conferir vindo aqui em casa.

8. Rua Hélia Ricaldoni de Freitas, 1040, Casa 5. Serrano. BH. MG. Brasil. Terra. Via Láctea.

9. A última função da máquina de lavar, depois da centrifugação, é a de Viagem no Tempo.

10. Só é preciso bastante água, pouquíssima roupa e um amaciante pra deixar tudo mais confortável.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

8) 8101 ou uma Gota fora do oceano

Ela sacou da mochila um livro e perguntou se eu já tinha lido aquele exemplar que a sua mão agora mordia.

- Esse eu não li, mas li um outro dele. O nome é “Um rio chamado tempo e uma casa chamada terra”.
- É a primeira vez que o leio. Eu curto. Ele brinca com as palavras.

Omiti minha opinião verdadeira, apenas emendei que preferia o Guimarães Rosa. 

Ela, indo para o Recife fazer mestrado.

- Você é uma pessoa séria, Diogo.
- Eu?
- É. Você se considera uma pessoa séria?
- Acho que não.
- Você aceita qualquer tipo de brincadeira?
- Aceito.

Não respondi assim, rápido, como você leu. Fiquei pensando. O que seria uma pessoa séria? Eu sabia dizer até o momento dela me perguntar.

Depois me disse que ela, sim, não aceitava qualquer tipo de brincadeira, era a tal séria e por isso “sou desse jeito”. E sorriu.

De que jeito? Com aqueles óculos engraçados que mal cabiam nos olhos? Eu nunca tinha a visto como uma pessoa séria. Até porque eu não sabia o que era a tal seriedade.

“Sou desse jeito” pediu para que lhe enviasse e-mails, desceu do ônibus e foi para o Recife.

Assim que eu chegasse ao trabalho - pois era pra lá que estava indo, não para Pernambuco -, procuraria no dicionário virtual a maldita palavra "sério".

Pessoa séria é para adultos. Eu ainda conservo aquela velha história de não confiar em ninguém com mais de trinta anos. A questão é que eu já tenho trinta anos. E dentro de mim já excluo os jovens como parâmetro de confiança. Tenho todos os requisitos para comprar um relógio e manter o cabelo aparado. Eu começo a me excluir, então. Tudo para me integrar.

É aquela velha história – acho que do zen-budismo -, uma gota fora do oceano é apenas uma gota. Uma gota no oceano... é oceano.   


segunda-feira, 21 de agosto de 2017

7) Tobias, o vira-lata que sonhou conosco

Encontramos o cachorro no gramado entre o CAD e a Letras. Abanou o rabo (daquele jeito de dizer felicidade) e pulou em nós. Alguém no fim da rua gritou "Tobias!". Não era com o cachorro, mas serviu como nome pro animal. Levamos o Tobias à casa da Clarissa. Foi nos acompanhando, tranquilo, até o Jaraguá, sussa como uma nave, mas nunca me esqueci de que ele era apenas um cachorro. Em casa, demos um rango, separamos água e tapete para ele dormir. Preferiu o sofá. Achamos sensato. Dormiu cada um no seu canto. Tobias no segundo andar, nós no primeiro. 

(Um cachorro parecido com o Tobias que encontrei na Internet)

Noite boa, sem latidos ou choros, tanto de cachorros como de humanos. Acordamos cedo só pra ver se o Tobias estava bem. Estava. E também ficamos bem depois de saber que Tobias tinha sonhado conosco. No sonho, todos voavam. Voltei para a minha casa. Mais tarde soube que Clarissa, depois de um banho no Tobias e uma catação de pulgas, foi com ele até a faculdade se despedir. Observou o vira-lata cor de paçoca atravessar a Antônio Carlos. Pensou em chamá-lo de volta, adotá-lo, levá-lo pra fazenda dos pais, ficar mais um dia em sua companhia, no entanto, lembrou-se do sonho que ele teve conosco, o voo, a liberdade, e continuou a observá-lo atravessar o asfalto e se reunir contente com suas verdadeiras companhias de quatro patas. 

domingo, 20 de agosto de 2017

6) MC Livinho e a Máfia Italiana

- Tem jeito de você cortar o meu cabelo igual ao do MC Livinho?
- Tem.
 Cabelo cortado. Olho para o espelho e nada do meu cabelo se parecer com o cabelo do MC Livinho.
- Não ficou parecido com o cabelo do MC Livinho.
- É porque o MC Livinho é o MC Livinho, né?


Paguei por mais essa frustração. Aquela frustração que é igual a de vestir um paletó na espera de se parecer com um gangster dos filmes de máfia italiana, e ao se olhar no espelho, amigo, você só precisa de uma bíblia nas mãos para ser um pastor evangélico.

sábado, 19 de agosto de 2017

5) Vodka ou brilho eterno de uma mente sem lembranças

Vez ou outra alguém vem me lembrar de algo que se recorda de eu ter dito, ou de um presente que ganhou de mim. Na maioria das vezes, me parece, cada um se lembra daquilo que mais lhe convém, claro, ou que foi mais marcante - ou sei lá por qual critério a gente grava umas coisas e esquece outras. É como se plantássemos memórias uns nos outros, sem ter a consciência de quanto isso pode afetar o HD alheio. 


Ou sem ter a consciência exata se do que dissemos, fazemos, ficarão ou não nas memórias alheias. Bem, dizem por aí que a memória não é exatamente um registro da realidade, mas uma interpretação da mente. Posso entender isso de algumas maneiras, uma delas é que minhas memórias se modificam conforme vou me recordando delas. Provavelmente alguém já te lembrou de coisas sobre você que esse alguém nunca esqueceu, mas você mesmo não se lembra. É só uma reflexão que talvez não chegue a nenhum leitor. Ou fique na memória de quem acabou de ler.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

4) Ensaiozinho sobre a inutilidade ou as palavras de Jodorowsky

Sempre fui uma pessoa inútil. Costumam juntar a inutilidade a coisas não práticas. Para os chamados úteis: arte é inútil, poesia é inútil. Basicamente tudo aquilo que não tem uma resposta (na maioria das vezes financeira) rápida, clara, objetiva, é inútil. É por isso que eu sou inútil. Até quitar boleto em lotérica, para mim, é subjetivo. 

Cena mítica e mística de "Holy Mountain" (1973)

Não sei exatamente o que faço com toda essa inutilidade. Já produzi bastante: gravei discos, editei vídeos, escrevi livros. E daí? Fico pensando naquilo que o Jodorowsky disse: "Fiquei dois anos sem produzir a arte que eu produzia, porque precisava fazer algo que não fosse apenas alimentar meu próprio ego". Isso mexeu muito com a minha cabeça.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

3) Há poesia nas planilhas do Excel

Nunca imaginei que eu, uma pessoa tão subjetiva, sem qualquer senso prático, pudesse se dar tão bem com o Excel. Há um ano, me enfiei dentro de uma repartição pública para organizar um arquivo composto por processos financeiros.


Meus dedos, tão acostumados a preencher laudas de ficção no Word, tiveram de se familiarizar com planilhas complexas e recheadas de contratos, editais e recursos humanos. Se aos 19 anos eu me apaixonei por Kafka, aos 30 eu o compreendo como nunca. O absurdo não tem seis patas e nem anda pelas paredes, nem é um macaco que relata uma transformação pessoal  a uma academia.

O absurdo é a própria academia a quem o relato é dado. Eu, um ser humano, com telencéfalo altamente desenvolvido e polegar opositor, não me atinei sobre a minha própria metamorfose burocrática. Dia a dia remexo o absurdo em pastas suspensas além de tramitá-lo às repartições vizinhas. Será que os irmãos Campos conheciam a poesia concreta dessa argamassa administrativa? Tudo isso para dizer que não apenas me tornei prolixo e desnecessário como este texto, a academia e as repartições, como agora as planilhas preenchidas do Excel são os meus novos sonetos.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

2) Menino tenta imitar Super-homem e consegue!

Superman (George Reeves)
Cancelei minhas assinaturas de revistas e jornais para assinar um periódico diário de Ficção. Agora, todos os dias, recebo manchetes imperdíveis sobre coisas que não existem. Ontem, por exemplo, 15 do 7 de 1900 e 40 e 10, a manchete estampada na capa dizia: "Menino tenta imitar Super-homem e consegue!". Consumi ansioso a matéria que, resumindo, narrava um pulo sensato (era uma criança) pela janela do décimo primeiro andar de um apartamento no Barro Preto. O menino passa bem. E, como conta a reportagem, não voltará antes de ter comido pelo menos metade dos algodões celestes.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

1) Só o bom poema se basta

Um bom poema me dá um tesão danado. Mas só o bom poema. Poema erótico? Não, qualquer bom poema. Aquele que você levaria para o deserto, pois só um bom poema é alimento no deserto. Uma vontade de escalar as paredes do quarto, lamber a torneira da pia, beijar estranho no corredor do supermercado, morder uma maçã como quem morde um seio, uma bunda, um dedo. O bom poema. Somente. Destilado em Drummond, Hilda Hilst, Dante, Cecília Meireles. 
Drummond curtindo a vida na praia de Ipanema

O bom poema é um dedo no cu, uma massagem no grelo, um bom poema é Bomba de Antimoralidade, a cruz de cabeça pra baixo, a Igreja católica vomitando num banheiro químico.  É Hiroshima dentro de nós. "Meu Deus, por que me abandonaste se sabias que eu não era Deus se sabias que eu era fraco". Um copo de água e gelo e "A ausência é um estar em mim. E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços". 
Hilda Hilst fumando um cigarrinho esperto

E rodeia a sala com o copo molhado e fala: "Se eu disser que vi um pássaro Sobre o teu sexo, deverias crer?". E caminha procurando a porta, sinônimo de passagem, e "Existe a noite, e existe o breu. Noite é o velado coração de Deus". E se apega ao copo, ao formato do copo, joga o copo na parede. Não há mais portas, só percepção. "Deixai toda esperança, ó vós que entrais!", e depois suplica pelo copo perdido. Um bom poema dá um tesão danado e desidrata.