terça-feira, 11 de julho de 2023

30) As regras do óbvio são as mesmas do medo

De um escritor sem estilo

Aos curitibanos reserva-se um lugar particular de experimentação literária, vide Jamil Snege, Valêncio Xavier, Dalton Trevisan e, não menos provocativo, Manoel Carlos Karam. Este, um morador de Curitiba nascido na pequena cidade de Rio do Sul, Santa Catarina, que carregava em sua personalidade o cosmopolitismo e uma literatura que escapa à tradicionalmente realista literatura brasileira. Ele parece, do contrário, fazer da literatura um jogo, como o argentino Borges parecia arrostar também as suas tarefas. Nos demais países sul-americanos teria uma boa morada; as regras do óbvio, porém, são as mesmas do medo e, para fugir ao script, ele não se juntou aos compatriotas de língua espanhola – o autor é do Brasil.

A Manoel Carlos Karam deram a profissão de dramaturgo, jornalista, homem de tevê; atividades curiosamente não muito distantes de Valêncio, seu conterrâneo de coração. Seria a vida, entremeada por diversas mídias, aquela catalisadora de uma literatura multimidiática? Em outro capítulo, com o mesmo nome deste, falaremos mais.

Um grande não-livro, mas nem tão grande assim

Pescoço Ladeado por Parafusos não é um grande livro, por duas razões. A primeira delas diz respeito à quantidade: pouco mais de 150 páginas. A segunda razão: não é grande no sentido canônico, pois mais do que não ser grandioso, não tem a menor de intenção de sê-lo.

Seu humor e sua forma tratam a literatura não como uma arte soberana, mas como mais uma mídia de contar histórias, dizer através de textos. Nesses aspectos, também, o livro dialoga com o Serafim Ponte Grande, de Oswald de Andrade. Manoel Carlos Karam produz em Pescoço Ladeado por Parafusos um pastiche, ou uma reunião deles. A palavra “paródia” não casa bem como casaria à interpretação do livro de Oswald. No caso de Karam, os diferentes gêneros fazem parte de um arsenal técnico: o que nos ensinou a história da literatura e dos gêneros literários? Estamos no início do século XXI, já podemos usar de todas essas experimentações para continuar experimentando, clamando pelo riso, cortando a ironia com navalha, desconstruindo o objeto encadernado e cheio de pompa, até com certa gratuidade, mas que tem em si mais de pastiche do que paródia.

De um escritor sem estilo

Em reportagem do Jornal Cândido do Paraná, diversos autores citam a contribuição de Karam para as letras brasileiras e de como seus livros formam um oásis de experimentação e humor. Carlos Henrique Schroeder deixou estes dizeres: “Foi Karam quem me ensinou a palavra ‘possibilidade’. Sim, a possibilidade de convulsionar uma narrativa, a possibilidade de rir do leitor, de si mesmo, de tudo, e também um segredo: a literatura não tem margens, é um campo vasto e uma solidão compartilhada”.

Marçal Aquino diz o seguinte: “Karam nunca é hermético ou obscuro. Ao contrário. Sua escrita é de uma clareza abusada. Porém, está o tempo inteiro desafiando a imaginação do leitor com jogos aliciantes. Ou seja, exige um leitor com imaginação”.

“Possibilidade” é uma palavra de muitas possibilidades – me perdoem o humor inevitável (até por escrever sobre uma das obras de alguém com ironia sempre afiada). Uma palavra de muitas possibilidades como o livro de Karam. Um livro aberto, com numerosas narrativas, ora complementares, ora díspares. Dando ao leitor a oportunidade de uma leitura rizomática, em que começo, meio e fim não têm fim, meio, nem começo. Parte-se de onde é possível.

Jornal da Guerra Contra os Taedos

Os capítulos (ou pequeno livro) intitulado Jornal da Guerra Contra os Taedos são feitos de comentários breves em tom jornalístico sobre uma guerra travada contra um povo imaginário que é idêntico ao povo que o combate. Nada melhor do que uma dessas demonstrações na página 7, a partir de um narrador em primeira pessoa, como um representante do povo que luta contra os taedos

A guerra contra os taedos já durava três anos quando chegou o emissário do papa para nos informar que era pecado entrar em guerra contra os taedos. Como não fomos nós que entramos em guerra contra os taedos mas os taedos que declararam guerra contra nós, matamos o emissário do papa. Ele não deu a outra face porque estava morto.

Um grande não-livro, mas nem tão grande assim

Para Antonio Candido, Serafim Ponte Grande, de Oswald de Andrade, foi um livro que poderia ter sido grande (no sentido de canônico, profundo), porém não chegou a acontecer, sobrou possibilidades, faltou-lhe grandeza. Já para Haroldo de Campos, Serafim Ponte Grande, como intitulado em seu ensaio, foi um grande não-livro. Fiquemos com a definição do último para também escrever sobre Pescoço Ladeado por Parafusos.

Anotações sobre números

Os capítulos assim nomeados podem ser lidos como um livro de aforismos tendo como temática os números.

Há um sem-número de números.

Um capítulo da História pode cair no esquecimento. Mas nunca o número do capítulo.

Último número só nos shows de mágica.

Era 1 vez.

O inumerável é uma tolice. Ou 2 tolices. Ou 3 tolices. Ou 4 tolices. Ou 5…

Um grande não-livro, mas nem tão grande assim

Editado em 2001, não à toa na extinta editora de Joca Reiners Terron, a sintomática Ciência do Acidente, no primeiro ano do ano que viria a ser conhecido como aquele do Bug do Milênio, o livro de Karam tem em sua confecção o espírito da época: informação em excesso, narrativa fragmentada ou narrativas, descrença na ordem etc.

Haroldo, em texto sobre Serafim, logo no início pontua: “O romance-invenção Serafim Ponte Grande, de Oswald Andrade, escrito de 1929 para trás (ou terminado em 1928, como se lê no prefácio) e publicado em 1933, é uma dessas obras que põem em xeque a ideia tradicional de gênero e obra literária.”

No livro de Karam dá-se o mesmo: o leitor está diante de um aglomerado de narrativas e aforismos que podem ser vários livros e talvez nenhum, configurando o que Haroldo dá o nome de grande não-livro – no caso de Pescoço, até melhor pequeno não-livro. Em todo momento, por sua estrutura fragmentada, Pescoço Ladeado por Parafusos repensa a própria noção de livro. Cada capítulo pode ser lido como capítulos de um livro separado. A profusão de temáticas e gêneros literários (matéria jornalística, aforismos, poemas etc) criam possibilidades, tensões e arcos narrativos diversos.

Pescoço Ladeado por Parafusos ou o não-livro de Karam é uma rede em que os fios se unem não por uma afinidade temática, mas pela disposição dos textos e do próprio objeto encadernado, como se as histórias se juntassem porque alguém as costurou, mas não que os textos tenham se costurado pelas similaridades.

De um escritor sem estilo

O autor não nega as suas influências, não as esconde, pelo contrário, em Pescoço Ladeado por Parafusos as citações são diretas (não no sentido acadêmico com aspas, mas sim ao nomear personagens, citar o nome dos autores ou obras em determinadas passagens ou títulos: Kafka, Cortázar, Perec, Buñuel). A Kafka, podemos indicar o absurdo das situações e uma citação direta aqui e ali; a Julio Cortázar, o capítulo “Projeto de Bestiário”; a Georges Perec, a construção, os próprios mecanismos que deverão ser respeitados durante a confecção do romance(?), além de uma confissão sobre gostar deste autor e de suas brincadeiras em entrevista ao programa Persona; a Buñuel, o surrealismo e uma citação do próprio nome do diretor espanhol; a Machado, Karam deve o humor e a ironia. Karam é um fanático pelo Bruxo do Cosme Velho.

Os capítulos que são livros

Os nomes dos capítulos se repetem durante todo o pequeno não-livro de Manoel Carlos Karam. Repetem-se mas contam histórias diferentes. Alguns continuam uma narrativa pregressa, outros reinventam toda a roda. As temáticas se repetem, complementam-se. Por isso, podem ser lidos como livros únicos. Nessa leitura da escolha, caso o leitor opte por ler apenas o Jornal da Guerra contra os Taedos, terá ele um pequeno livro com a coerência possível de uma temática única, mas não garante a segurança de um romance do século XIX. Os principais capítulos são: Jornal da Guerra Contra os Taedos, Capítulos numerados: 1, 2, 3…, Projeto de Bestiário, Anotações sobre números e outros. Os nomes dos capítulos se repetem durante todo o não-livro de Manoel Carlos Karam, como esta frase neste parágrafo.

Um grande não-livro, mas nem tão grande assim

A metalinguagem é uma das ferramentas usadas pelo narrador (se é que possível usar o singular). Nos capítulos numerados, um dos narradores expõe suas escolhas: como deverá se chamar o personagem dessa história? Aqui, o livro é pensado e construído conforme é escrito.

A falta de enredo é latente: não se conta uma história, contam-se várias e nenhuma delas é suficiente. Num primeiro momento, essa profusão de narrativas, que desfocam o leitor e o conduz a um abismo, deixa o livro instigante. Como receptores das narrativas, queremos juntar os cacos, colocar sentido no mosaico. Ora os narradores (que também são vários) parecem nos dar um mapa confiável, ora nos colocam em um labirinto sem o fio de Ariadne.

De um escritor sem estilo

Em entrevista filmada ao programa Persona, Manoel Carlos Karam cita um amigo (do qual não aponta o nome, mas uma frase que poderia defini-lo) e que parafraseio aqui: “Quando pego o livro para ler, já sei que é o Karam, justamente por não ter ali um estilo”. O autor repete a frase com uma risada. Ao entrevistador, novamente, diz escrever sempre um pouco por dia. A sua ideia de literatura como experimentação, como jogo, faz com que, para cada livro, ele tenha de reescrever a própria biografia, as próprias obsessões. No caso de Pescoço Ladeado por Parafusos, não é diferente. Todos os seus livros podem ser entendidos como a coletânea de vários livros.

Capítulos numerados: 1, 2, 3...

Um narrador em terceira pessoa inicia uma investigação para descobrir como deverá ser o nome de um personagem, elencando características possíveis dadas a nomes distintos. Aqui, o tom metalinguístico é predominante. A narrativa se constrói enquanto é escrita, o narrador está cheio de dúvidas e espera saciá-las enquanto pensa sobre os nomes, como no capítulo de número 2

2. Se a escolha de prenome é difícil, pode-se cogitar que o indivíduo seja chamado pelo sobrenome. Oliveira seria inoportuno. Gonçalves, resumindo o roteiro, trocaria o dia pela noite ou a noite pelo dia ou trocaria alguma outra coisa. Carvalho, pelo destino anunciado pelas cartas, nada feito.

Projeto de Bestiário

Aqui, para cada vez que aparece este capítulo, uma história distinta envolvendo os nomes pensados anteriormente é contada. Esses capítulos podem ser considerados pequenos contos. Lê-los por escolha única dará ao leitor a perspectiva de um livro de microcontos. Esse capítulo é, também, uma espécie de “teste de atuação”, como se o narrador estivesse testando os nomes anteriormente pensados em ações cotidianas – como esses personagens se comportariam?

Carlos parou junto à janela e falou olhando para fora. Anos e anos de experiência e apenas mais uma receita para não ficar sóbrio, disse baixinho. Guida ficou em silêncio. Carlos percebeu que ela não havia escutado. Deu as costas para a janela e repetiu: anos e anos de trabalho e apenas mais uma receita para não ficar sóbrio.

Um grande não-livro, mas nem tão grande assim

Assim diz Haroldo de Campos sobre Serafim Ponte Grande, mas ao Pescoço Ladeado por Parafusos podemos dizer o mesmo.

O familiar nos aparece como algo novo, desconhecido, se nós alterarmos as relações normais de sua apresentação por um “efeito de estranhamento”.

O teórico nos fala sobre o desnudamento do processo, já que o livro é um mostrar da própria feitura do livro. Ele cita Tristram Shandy como uma luz que demonstrou os automatismos do objeto livro, mudando a cara do mercado editorial assim como da literatura romanesca, já no século XVIII, por Laurence Sterne.

O Serafim, de Oswald de Andrade, o Tristram, de Sterne, assim como o Pescoço, de Karam, são livros que põem em discussão as suas próprias estruturas. Livros que falam de si mesmos – não apenas.

Colcha de retalhos

Pescoço Ladeado por Parafusos é híbrido, feito de colagens, como num quadro cubista. Filho mais do cinema do que da literatura, talvez. Um livro de prosa e de montagem. União de diferentes gêneros, de diferentes mídias, apesar de totalmente texto. Como bem assinala Haroldo de Campos

A colagem — e mesmo a montagem — sempre que trabalhem sobre um conjunto já constituído de utensílios e materiais, in-ventariando-os e remanipulando-lhes as funções primitivas, podem se enquadrar naquele tipo de atividade que Lévi-Strauss define como “bricolage” […] a qual, se é característica da “pensée sauvage”, não deixa de ter muito em comum com a lógica de tipo concreto, combinatória, do pensamento poético.

Capítulos numerados: 1, 2, 3…

O narrador dos capítulos numerados entende que o personagem principal é a junção de vários outros, como a criação do doutor Frankenstein. Aquele que tem o pescoço ladeado por parafusos.

quarta-feira, 2 de março de 2022

29) Silêncio

O silêncio é um senhorzinho de muita idade. Tanta idade ele tem que chega a ser o mais velho senhor existente. Visto que o silêncio — como diria Arnaldo (não o Cezar Coelho) — foi a primeira coisa que existiu.

Esse senhorzinho tem nos dedos os mais variados calos, de todas as épocas, de todos os lugares. Tão consumido pelo tempo é o seu corpo que a mesma idade do tempo ele tem.

Segundo dados nem um pouco avançadíssimos de pesquisa, o silêncio anda tão fora de moda que já nem anda. Para ir daqui até ali, a bengala é de ótima serventia. Com a cautela herdeira da idade, o silêncio caminha atento para não se machucar com as quinas desavisadas, e usa um aparelhinho para escutar melhor. Resultado de uma vida inteira dedicada ao ouvir — esse verbo tão maltratado.

Sim, isso mesmo, o silêncio de que falo não é aquele sinônimo de ausência de som. O silêncio ouve, pois sabe a hora de se calar.

Breve amostra do silêncio: você está sentado em uma poltrona, lendo um livro de poemas, daqueles de arrebatar. Daí que você lê o último verso do melhor poema que aquele dia poderia ter lhe dado. Instaura-se um silêncio. Desse silêncio ouve-se a garganta engolindo em seco. A cabeça a borbulhar o indizível. Você ouve barulhos internos — do estômago?  —, barulhos externos — o carro passando na rua, a geladeira roncando —, barulhos que compõem o silêncio. Um silêncio impactante, tão estrondoso como a algazarra de um vulcão desperto. 


O senhorzinho silêncio anda tão fora de moda com o seu pulôver. Nada damos a ele. Nada parece ele merecer. Um E.T., de tão estranho que é. Tão anacrônico e desrespeitado. Desde a ascensão do Walkman até os dias do "Ligue o som" dos desesperados stories, o desrespeito só aumenta.

Tão fora de moda que o "ficar em silêncio" tem enlouquecido as pessoas. As pessoas se sentem solitárias em sua companhia. 

Breve amostra do medo do silêncio: você quer deitar-se, dormir o sono dos justos, mas o medo de ficar em silêncio a consome, quando deveria ser o sono a bater à porta. Decide por colocar um barulhinho enquanto o sono não vem, o barulhinho é melhor companhia do que o silêncio.

O silêncio se tornou uma companhia indesejada como fora o reflexo para Narciso. Caso o silêncio tente dar os ouvidos por aí, há quem se reunirá em passeatas contra esse intruso ou apenas será, em contrapartida, um fiel defensor do barulho em toda e qualquer instância.

O silêncio parece uma planta que cresce do concreto, tentando resistir apesar de todo o entorno se vestir do contrário. Uma planta bonita, de verde vívido, mas dia a dia retirada sob a acusação de ser uma erva daninha.

Quando estamos na companhia do silêncio, podemos nos ouvir. É o que menos queremos no entanto. Esse senhorzinho ensina a ouvir o outro assim como a nós. No momento em que tudo parece gritar por atenção, o silêncio para, escuta e pensa naquilo que escuta.

O silêncio é generoso como são aqueles que sabem, apesar da dificuldade em caminhar, apesar da idade, apesar de todo o burburinho, que tudo terminará como começou.

(Em silêncio.)

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

28) Um brinde

Há alguns milhares de anos (na real? acho que um pouco mais de dois), os gregos entendiam que o amor erótico era um dos remédios contra a morte. Eles davam o nome de phármakon a esse comprimidinho. Esse amor era cantado nas líricas – poemas recitados ao som do instrumento lira.

Não é que se você trepasse como hamster sem rodinha enganaria a senhora das foices. Você só aplicaria uma dose de Alzheimer na mais velha conhecida nossa, e ela te deixaria para uma outra hora, quando lembrasse. Ou seja, você espantaria a indesejada por um tempo, aquela evangelhista ferrenha do fim dos dias, e finalmente viveria a plenitude, o prazer em essência.


Um amorzinho era um remédio (e acredito que ainda seja) daqueles, mas outras coisas entravam na lista que Dionísio esculpira numa pedra da marca Tilibra. Por exemplo... a celebração!

A celebração era a síntese, o próprio phármakon, o remédio por excelência, fosse amando, cantando, bebendo, recitando versos ao som de lira ou em linhas afiadas de um rap – acho que não naquela época. Lembramos que Hermes até tinha um flow invejado, passava uma mensagem que era uma beleza, sempre se baseando ali na métrica de Homero, mas rap, rap mesmo, ainda não.

Na década de 70 da nossa era o lema "Sexo, Drogas e Rock and Roll" ficou famoso. Na Grécia do século V antes de Cristo, o lema poderia ter sido "Afrodite, Dionísio e as Musas".

Era preciso celebrar o amor, o vinho, a arte, o sexo, a embriaguez, a beleza. Não apenas a virilidade e a guerra mereciam destaque, como faziam Aquiles e seus amigos postadores de bíceps dos stories – conhecidos como cantos da Ilíada. E, claro, um bíceps que eu gostaria de ter, porque esses bracinhos meus aqui são a própria lira.  

Nos dias da era (ainda) cristã, as pessoas vão a bares, festas regadas ao melhor do álcool, assistem ao Campeonato Brasileiro. E tem a celebração para o time dos que preferem uma aguinha, assistir a um jogo de futebol com suquinho, rir com Friends, ler poemas. Ou cantar o amor e a sorte de estar vivo em letras de música, em filmes com a Drew Barrymore, em casos românticos clichês das novelas, ou uma volta de bicicleta para ver a cidade. 

Como diria o nosso russo camarada, alcunhado por Dostinha, e Dostoiévski para os acadêmicos, a beleza salvará o mundo. 

Para os líricos gregos, porém, era preciso "usar" de tudo com temperança, já que comprimidinhos traziam efeitos colaterais terríveis se usados com exageros, pois phármakon significava tanto a saúde como a doença.

Resumo da lírica: não se vivia apenas de vinho, sexo e arte. Não se vivia uma vida inteira dedicada aos banquetes. Mas sem banquete, sem celebração, não tinha por que viver.

Para lembrar de estar vivo pode ser a mistura do caos e da sanidade, a mesa com cerveja e com suco, com água e com vinho, o pote de tinta despejado num quadro branco como fazia Pollock – que era um beberrão daqueles.  

Novamente, porém, não interessa: não é a embriaguez que faz a diferença, nem mesmo a sobriedade.

O que faz a diferença é o brinde.

domingo, 6 de fevereiro de 2022

27) Detetive do edifício Dantês

Pode ser que o mistério tenha definitivamente desaparecido e nem mesmo Hercule Poirot, com suas habilidades indiscutíveis, possa encontrá-lo.

Assim como não é mais possível trombar com um tigre-dentes-de-sabre na avenida Afonso Pena. Triste. E se o mistério estiver na cama de um hospital à espera do último suspiro? Quem vai atrás de salvá-lo da extinção? Parece que o Batman anda ocupado com as suas finanças.

Tudo isso virou assunto que não se toca, coisa do passado, poeira do tempo, máquina de escrever, relacionamentos duradouros, Cruzeiro na série A. Não é de hoje que esse ser que só mostra a metade do rosto tem vivido os seus finalmentes (e ainda bem que são vários). Não sei quando começou a derrocada do quase inominável. Convenhamos, quando não citamos o seu nome, alimentamos ainda mais o mistério.

Eu, como detetive freelancer, tenho algumas pistas que levarão à descoberta do fim do mistério. Abrindo meu caderno Tilibra com capa de surfista, eis as três pistas tingidas à caneta Bic:

Pista Número 1 - Mania de explicação da Internet.

Você sabe quem foi Hercule Poirot? O belga Hercule Poirot ou simplesmente Poirot foi um grande detetive fictício e protagonista da maioria dos livros de Agatha Christie, a dama do crime. Fonte: Wikipédia, levemente alterada.

Se fosse só até aí, tudo bem, só que de repente aparece um vídeo de 14 horas a dissecar (uma palavra importante) todas as teorias possíveis que cercam a vida e a morte de Hercule Poirot, com cento e dezesseis entrevistas com especialistas da literatura de Agatha e mais o Metaforando, trajando o seu elegante terno azul-marinho, analisando os minuciosos movimentos da rainha do crime e tirando dezenove conclusões ao quadrado do que comia, assistia, onde vivia, que jornal lia, e qual a bolinha de gude preferida de Herculinho, quando este tinha apenas seis anos de idade. E você já sabe isso tudo, sem ter lido um livrinho da Agatha Christie.

Não há mistério que sobreviva. 

Pista Número 2 - Tudo é mostrado o tempo todo.

Acordei, deixa eu mostrar meu rosto sem maquiagem para provar que sou linda também sem maquiagem. Clique. Esse café da manhã tá dos deuses e muito fitness com essa granola de protagonista. Clique. Hora de trabalhar. Deixa eu mostrar meu macbook com a setinha do mouse sobre o botão de enviar do e-mail que enviarei para o meu chefe em Orlando. Clique. E agora bateu uma fome de arroz e feijão, mas sushi cai melhor com o foco correto na minha mão ao segurar o hashi com a mesma habilidade que Bruce Lee manuseava um nunchaku.

Não há mistério que não morra de inanição. 


Pista Número 3 - Nem pode ser sumido mais.

O canto Belchior, autor de clássicos como Rapaz latino-americano, Divina comédia humana e Sujeito de sorte, reaparece no Uruguai depois de anos sumido.

“Eu sou apenas um velhinho laaaatino-americano seeeem dinheiro no banco, com amigos importaaaantes e intercâmbio no exterioooor." 

Com o fim do mistério, acho melhor a nova edição do Aurélio vir sem essa palavra, para que a gente não se iluda que ele, sempre, há de pintar por aí.

Fiquemos apenas com o que ele um dia chegou a ser, como um melhor amigo que já não é mais. Ou com aquela música que vai tocar (ou não) na rádio e você precisa estar com a fita k7 em mãos para gravar. Diferente do status do MSN que já dizia se você estava feliz, triste ou ouvinte de Nirvana com 35 graus de sol – que é bem parecido com triste.

Fiquemos com aquele filme de terror realmente aterrorizante, e que apenas as pessoas que conheciam o valor do mistério te falariam as palavras exatas sobre ele, "Não vou contar nada. Só assiste, cara!". Bem diferente dos cinco trailers que passam todas as cenas do filme de forma embaralhada, e que você de frente para o computador diz: "Já sei tudo, nem vou assistir. Só fazer uma pipoquinha. Tô com uma fooome."

Com uma certa tristeza, confesso que o mistério está próximo do fim, e como disse lá em cima, à espera de seu último suspiro numa cama de hospital. Triste.

Mas... se ele está em um hospital, em qual? E se este meu diagnóstico de detetive freelancer estiver errado? Não sei as respostas para essas perguntas. Sou mal pago. Não sou Poirot. 

No entanto, uma coisa fica: o mistério.


sexta-feira, 23 de julho de 2021

26) Aulas Inesquecíveis

Algumas aulas são chatas, aborrecidas e apenas tempo perdido, enquanto outras tecem o improvável e podem mudar a vida de alguém.

À minha cabeça surgem duas aulas inesquecíveis. A primeira foi uma aula de geografia, no sexto ano do fundamental, lecionada pelo alto e esguio professor Kléber, o Klebão. Ele era um sujeito ríspido em sala, de cortadas ferozes feito atacante de vôlei verbal, quase indefensável. 

Uma vez, porém, Klebão pediu que fizéssemos um "para casa", uma redação que discorresse (lembro dessa palavra em especial) sobre a chegada dos portugas neste território ainda não chamado Brasil.

Fiz o para casa e o apresentei na aula seguinte. Depois disso nunca mais me esqueci dele, do Klebão, e já com treze anos passei a entender o que eu, Diogo, faria aqui neste mundo, e devo parte dessa descoberta ao ríspido professor de Geografia. Conto sobre esse dia em um texto que se chama Klebão, o pontapé narrativo.

A outra aula inesquecível aconteceu na graduação em Letras, lá em 2011. Uma professora, de maneira muito simples, mudou meu jeito de olhar pinturas e ler poesia. Foi a professora Myriam. Na primeira aula de teoria literária II, ela colocou sobre a parede branca um quadro do Paul Klee e posteriormente algumas estrofes do Barco Ébrio, de Rimbaud.

Primeiro ela pediu que olhássemos, durante um tempo, para o quadro de Klee. Se quiser fazer isso também, seria legal.

 
E ali nós ficamos. Olhando cada quadradinho, cada cor desse quadro, que tem um nome lindo: Som Antigo. Em seguida ela pediu que lêssemos algumas estrofes do Barco Ébrio, abaixo com tradução de Ivo Barroso.

Livre, a fumar, surgindo entre as brumas violetas,
Eu que rasguei os rúbeos céus qual muro hostil
Que ostentasse, iguaria invulgar aos bons poetas,
Os líquenes do sol e as excreções do anil;

Que ia, de lúnulas elétricas manchado,
Prancha doida, a arrastar hipocampos servis,
Quando o verão baixava a golpes de cajado
O céu ultramarino em árdegos funis.

Depois Myriam se levantou de sua cadeira e pediu que comparássemos o quadro com o poema, quais semelhanças existiam entre eles?

Daí que eu não conseguia enxergar nada que pudesse se coincidir. Até porque não entendia muito bem o que Rimbauzinho queria dizer.

Aos poucos, bem nas miudezas, a professora foi nos explicando. Primeiro a apontar a estrutura do quadro: os quadrados menores dentro de quadrados maiores, e fazendo uma ligação direta com os conjuntos de quatro versos que seguiam uma métrica dentro das estrofes.

Depois apontou aqueles quadradinhos que se repetiam em determinados pontos, e fez uma ligação com as rimas e as sílabas poéticas do poema*.

Aí a professora voltava para o quadro de Klee e apontava nele as diferentes tonalidades, e ia para o poema e mostrava as cores em excesso: "brumas violetas, rúbeos céus, excreções do anil". Além de todas as imagens que também eram muito coloridas: "Quando o verão baixava a golpes de cajado", enfim, uma chuva de sentidos, imagens e sons (esse poema dá água na boca).

Essa aula, no fundo bem simples, fez a minha cabeça explodir e dar um salto a mais. Fez eu perder o preconceito com poemas rimados e de séculos que não eram o XX, fez eu descobrir vários outros universos, desatarraxar parafusos mentais.

Depois dessa aula comecei a ler poesia bem devagar, passando por todas as "cores" possíveis de um poema e, por extensão, as cores do mundo.


*Resumindo, sílabas poéticas são as fortes e as fracas: em "QUAN-do-o veRÃO", as tônicas são fortes, e as fracas geralmente se ligam a outras fracas, então você conta "do" + "o" como uma sílaba somente, e se o verso terminar em sílaba fraca, você não a conta. Dessa forma Ivo traduziu os poemas em dodecassílabos, versos com doze sílabas poéticas. Posso estar falando errado, qualquer coisa vocês me corrijam. 

segunda-feira, 21 de junho de 2021

25) Nação Zumbi e a Ficção Científica

Sempre gostei de assistir a filmes de ficção científica desde criança, mas só comecei a ler FC depois dos 18 anos, e isso eu devo à Nação Zumbi, que sempre flertou com a literatura especulativa em seus discos. A primeira vez que escutei e vi a banda foi pela televisão no programa Bem Brasil. Curiosamente eles estavam divulgando o então novo disco “Futura”, de 2005. Comecei atraído pelas percussões da banda e depois fui atrás da discografia, foi assim que entendi que aquela tinha sido a banda de Chico Science (olha o codinome da figura). Comprei os cds que existiam na época e logo me atraíram as discussões filosófico-científicas que estavam presentes nas letras, desde os tempos em que os jornalistas chamavam aquele movimento, em Recife, de Mangue Beat. Depois de ouvir o primeiro disco, o segundo e um disco de homenagens a Chico, gravado depois de sua morte, caiu em minhas mãos o Rádio S.A.M.B.A, ou Serviço Ambulante de Afrociberdelia, em que os integrantes assinavam as composições com seus pseudônimos: Jackson Bandeiro e Pixel 3000, entre outros. Esses temas futuristas misturados à brasilidade me fizeram ainda mais fã da banda, e o “Futura”, aquele que apresentaram na tevê, permanece como o meu disco preferido. 

As letras de Dü Peixe continuam a falar de coisas que gosto e mexem com a minha cabeça, além de seu jeito único de cantar e criar melodias muito simples. Sem contar que consegui, em 2006, ir a um show aqui em Beagá, o primeiro deles, e foi uma das melhores experiências da minha vida. Pois bem, a partir daí comecei a ler ficção científica, tirando todo o preconceito que eu tinha com o gênero na literatura - era óbvio que sentia isso porque não conhecia a literatura de ficção científica, então eu só imaginava o que poderia ser, baseado nas minhas experiências vendo filmes que, na maioria das vezes, diluíam toda a carga filosófica, sociológica e antropológica da FC em cenas de ação e efeitos especiais.

quinta-feira, 10 de junho de 2021

24) A Morte e o Meteoro

Depois de ir ao lançamento do livro, aqui em Beagá, num Sempre um Papo de 2019, com o Afonso Borges e enfrentar a leitura sem muito entusiasmo da primeira vez, acabei de reler A Morte e o Meteoro, de Joca Reiners Terron, semana passada, em pequenas rajadas, assim como o autor do livro diz escrever. O livro conta a história de Boaventura, um indigenista aventureiro e sua missão para exilar os últimos cinquenta indígenas do Brasil, os Kaajapukugi, ameaçados de extinção depois da destruição da Amazônia. Eles serão transferidos ao estado de Oaxaca, no México. O livro é dividido em quatro capítulos, com o tempo cronológico tendo a consistência de uma gosma, em que passado e futuro se mesclam, característica que encontra eco no pensamento dos Kaajapukugi sobre a existência e a origem do mundo. A narração do livro fica por conta do substituto de Boaventura, já que este último morreu de forma misteriosa no decorrer da missão. Conforme a história é contada, somos envolvidos em uma trama que revela tensões, motivações e conspirações nada agradáveis em relação ao exílio dos Kaajapukugi. Indico - até porque aqui só escrevo sobre o que gosto. 

sexta-feira, 14 de maio de 2021

23) O Primeiro Sebo do Brasil


Eis que você, tão distraído(a) como os cachorrinhos diante da televisão suculenta, cai aqui. E descobre, meio à toa, qual foi a primeira livraria de livros usados do Brasil. Foi a casa do Livro Azul, logo ali na rua do Ouvidor, número 139, no Rio de Janeiro, em 1828. Quem inventou a extravagância e tomava conta da lojinha era o francês Albin Jourdan. Esse Albin Jourdan - ou cá entre nós, Jordinha - sacando de qual é que era o movimento da rua - tudo o olho da cara -, começou a fazer o contrário: a vender tudo baratinho. Não só. Jordinha trocava e alugava livro pra geral. E foi aí que o negócio fez como dinamite: bombou! O que se conta é que Jordinha, depois de velhinho, acabou ficando cego e quase surdo. Além de usar uma buzina para ouvir melhor, contratou dois ajudantes - que não ajudavam muito. O Jordinha, então, sempre se levantava, colocava a buzina no ouvido e atendia o pessoal. Jordinha encontrava os livros solicitados tão facilmente como se a livraria fosse apenas mais um cômodo de seu cérebro. A Casa do Livro Azul - como é de praxe das livrarias - melhorou o mundo até 1850.

terça-feira, 11 de maio de 2021

22) Ter ideia ou não ter ideia, eis a questão

Melitta Bentz, a inventora do filtro de café

Os verbos "descobrir" e "inventar" têm a mesma raíz latina: inventio, “achado", "descoberta".

Descobrir é então inventar e inventar é então descobrir.

Segundo alguns, toda criação parte de uma ideia. Será?

É verdade que a criação pode ser iluminada por uma fonte de luz direta, mas costuma curtir mais a natureza difusa.

A ideia da ideia de ter ideia prolifera como formigas em açúcar abandonado, principalmente em manuais de arte ou cursos EAD com enormes descontos para os 50 primeiros inscritos. 

Durante muitos anos (nem tantos, na real) acreditei que só escreveria um texto, faria uma música ou desenharia algo se tivesse antes uma ideia; de preferência das boas, daquelas que mudam o mundo, nosso jeito de ser, nossa produção, em que teremos finalmente encontrado a mina de ouro da criatividade, a manifestação viva da pedra filosofal, ou o Santo Graal da invenção.

A grande ideia existe, mas você não precisa dela. A pequena ideia já serve. Melhor do que isso, não ter ideia nenhuma serve mais ainda.

Acontece de ficarmos à espera de um despertar, uma iluminação dos gurus. Às vezes, ela vem. É luminosa, cheia de vida. A mente é encoberta por uma bolha de realidade em que tudo então poderá ser resolvido. Você faz planos, estrutura mentalmente aquela primeira intenção, pensa no investimento (de grana e energia) que terá de fazer, nas pessoas envolvidas, no tempo para a conclusão; pensa no resultado, em pessoas recebendo aquele tesouro, nos trabalhos posteriores, nas entrevistas em programas de tevê e internet, na lavada de cara daquele conhecido que nunca acreditou em você. Enfim, uma tempestade cerebral de tirar não só o cavalinho da chuva, mas o sedan prateado 2.0 e a barraquinha de cachorro-quente.

Até que você desiste de tudo ainda no sofá, porque a ideia cresceu demais, e você... é só alguém sentado no sofá.

Talvez, antes de pensar em como tirar uma foto, apenas ligue a câmera e tire uma foto. Talvez, antes de pensar naquele texto a la Hilda Hilst, comece a escrever qualquer coisa no guardanapo do bar, no papel sulfite ralinho e cheio de pautas. Talvez, antes de pensar naquele curta que vai mudar a cara dos festivais de cinema nos próximos vinte anos, desenhe sem ter a menor ideia do que está fazendo, apenas uma linha depois da outra. Tire a coberta do pensamento: descubra.

Quem sabe essa primeira foto não te dê uma partida, um trajeto, ou melhor, uma chegada: aquela fotografia já pronta, sem antes ter imaginado a sua existência. Quem sabe esse texto sem pé nem cabeça crie um tronco, que dele crescem membros, que surgem olhos, que gera um personagem, um história, um mundo? Quem sabe esse desenho não se desdobre em uma cena, um diálogo, ou apenas um desenho mesmo, e só. Tá pronto. 

Uma vez, o pintor Edgar Degas disse ao poeta Mallarmé que gostaria de escrever poesias, pois ele tinha muitas ideias para poemas. E foi aí que Mallarmé respondeu mais ou menos assim: meu amigo Edgar, puxa essa cadeira aí, senta aqui um pouquinho. Escuta só. Poemas não são feitos de ideias, mas de palavras.

segunda-feira, 26 de abril de 2021

21) O Chute Final

A esfera alva sobre o círculo branco. Os pés do italiano Roberto Baggio procuram se afastar da bola. Baggio suspende a cabeça para encarar o problema e descansa as mãos ao redor da barriga. Respira. Ante seus olhos, o goleiro, um tal de Taffarel.

Roberto Baggio quer atravessar o recém descoberto pegador de pênaltis — aquele jogador irregular do Reggiana, time modesto do mesmo país onde Baggio é sinônimo de ídolo. 

Já o menino, com seus 7 anos de idade, está sentado no chão de ardósia da sala de casa. Acompanha pela tevê de '14 e bombril na antena, junto dos irmãos e pais, a famosa disputa de pênaltis entre Brasil e Itália. É, claro, a final da Copa do Mundo de 1994, realizada no Rose Bowl, nos EUA.

O menino é morador da emergente cidade de Divinópolis, interior de Minas Gerais, no Brasil. Ele nada mais ama do que o futebol, e seu coração confirma o amor quando seus olhos nem piscam diante da tela chapiscada. Dali em diante o menino se tornará um fanático pela pelota. Fará campeonatos entre seus botões, escalará o desconhecido Ponte Preta de cor e seus aniversários terão balões coloridos como as cores do seu time do coração. 

Baggio precisa colocar a bola em um lugar entre o goleiro e os postes de metal. Um lugar que faça as redes balançarem assim como os torcedores do seu time. Um lugar que não transforme Taffarel em heroi — o mesmo goleiro insolente que já agarrou um pênalti mal batido de Massaro minutos antes. Roberto Baggio não pensa no menino. Por que o então maior jogador do mundo, ganhador da bola de Ouro do ano anterior, pensaria? Mas sabe que existem milhões à espera de seu derradeiro chute, seja em Divinópolis, na cidade de Roma ou nas cadeiras numeradas do estádio americano, o mesmo coliseu em que ele, Baggio, se prepara para se tornar ídolo ou — como uma moeda de duas caras lançadas ao ar pelo juiz — o vilão. 

O menino rói as unhas de ansiedade. As unhas de Baggio estão intactas; ele apenas se concentra no objetivo, aquilo que os ingleses não à toa deram o nome de Goal.

Como um ser onisciente, vindo do alto-falante da CCE, uma voz meio aveludada e rouca narra com emoção a seguinte frase: "...vai partir... ...VAI QUE É SUA, TAFFAREEEL! PARTIU! BATEU!..."

Segundos antes, Baggio corre até a bola. Taffarel se adianta, dando um passo e pulando para frente. Baggio chuta. Taffarel cai. A bola sobrevoa acima do travessão. A narração completa: "...CABÔÔÔ! CABÔÔÔ! ACABÔÔÔÔÔ! É TETRAAA! É TETRAAA! O BRASIIIIIIL É TETRA CAMPEÃÃO MUNDIAAAL DE FUTEBOOOL! O BRASIIIIL, VIIINTE QUATRO ANOS DEPOOOIS, É TETRA CAMPEÃO MUNDIAAAL DE FUTEBOOL!...".

Roberto Baggio não chegou a ouvir aquela frase. Depois do chute final, apenas deixou o queixo cair sobre o peito, como um Dadá Maravilha às avessas, sem encontrar a bola que justificasse o gesto. Não ouviu aquela frase gorda e emotiva que, para ele, seria um tremendo fastio. O que seus ouvidos desejaram? Bloquear, somente bloquear, como uma barreira feita por Pagliuca, a festa de arromba dos jogadores amarelos.

Porém, mais impactante do que a frase esfomeada do narrador brasileiro teria sido, ou o alto-falante da CCE quase a estourar, ou os abraços e as inúmeras reprises daquele chute em todos os telões do mundo; mais impactante do que o menino, agora homem, e com os olhos marejados, a escrever as lembranças daquele dia, foi e ainda é... o zumbido. O zumbido ainda atormenta Roberto Baggio. E já são quase trinta anos, agudo e penetrante, o zumbido em uniforme de insônia, vestido de entrevista, documentários, lembranças escabrosas.

Já o menino, mesmo com os problemas da vida adulta, nenhum zumbido capta. Seus pensamentos tão somente repetem: "É TETRA!". 

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

20) Caminhar não leva a lugar nenhum

É justamente a infinitude que nos interessa ao caminhar. Não ter um destino: alguém levantando uma placa de papelão com o nosso nome rabiscado em meio a um aeroporto infestado de gente. Não ter uma chegada: um pódio dividido em três categorias de vencedores. Não ter um porto: um solo de areia, palmeiras e vendedores de coco que nos atraquem. Caminhar – desculpe a indecência – não leva a lugar nenhum.

Caminhar elide sujeito e objeto. (Talvez algum poeta tenha dito algo parecido). Caminhar é (atente ao tempo verbal) presença. Pelos menos o caminhar de que falo. Aquele sem dívidas a serem quitadas com a barriguinha. Sem pódio de chegada ou beijo de namorada. (Sim, um letrista falou). Caminhar por caminhar, para se reconhecer.

Comecei a manifestar esse caminhar quando ainda o encarava como uma maneira de economizar o dinheiro da passagem de ônibus de ida à escola para comprar cds do Pearl Jam; banda que me fascinava na adolescência e que fazia de seus discos obras-primas gráficas. Ia do Caiçara (onde ficava a escola) até o Serrano (onde eu morava) apenas guiado pelos meus pés; e, sim, tinha um destino. Até dois. Chegar no Serrano vivo a cada dia. Depois de uma semana, uma semana e meia, ter o dinheiro para comprar o cd.


Depois esse caminhar começou a surgir em momentos em que eu precisava conversar com um amigo. Aí eu convidava alguém, nós comprávamos um Chapinha e dá-lhe pernas até a Lagoa da Pampulha. Apesar de parar na Lagoa, não era em si um destino, um objetivo. O objetivo era a conversa. Tanto a caminhada como a lagoa eram trajetos.

Até que (já naquela época) as pessoas não tinham mais tempo e nem sempre havia um amigo, e aí o trajeto se transformava em companhia. E o destino, o objetivo já não tinha importância. A importância morava nos pés em movimento. Nos olhos a verem as coisas. Nas narinas a sentirem o cheiro enquanto ouvidos percebiam movimentos, sons próximos, sons distantes.

Tanto feliz como triste, caminhava. Uma vez vi um documentário na tevê aberta sobre andarilhos. Como é de costume desses programas, metade de tela era de entrevistas com os andarilhos, metade com "especialistas". E os especialistas diziam que quem tinha como objetivo na vida o andar, era alguém sem rumo. De início pensei que eu não tinha rumo nada vida e cheguei a comentar com uma amiga essa descoberta. Por fim tive certeza de que não tinha rumo na vida... e tudo bem.

O "tudo bem" surgiu com mais força depois de descobrir a meditação andando. Para os budistas da escola zen (ou chan, se for chinesa) o caminhar sem meta é uma das práticas meditativas. Eles praticam em uma sala, e dão o nome de kinhin, mas também praticam em ambientes externos. E nos últimos dias decidi praticá-la novamente. Para isso tirei da estante um livro do Thich Nhat Hanh, Meditação Andando. Desse monge, na Netflix, até um mês atrás tinha um documentário sobre seu mosteiro, o Plum Village, na França. É uma pena que tiraram; pelo menos consegui assistir três vezes.

A meditação andando contempla esse aspecto de não ter meta enquanto se caminha. Não querer destino. Essa nossa obsessão por resultados traz também muitas frustrações. Porque, simplesmente, não podemos ter tudo o que desejamos. Quase sempre não chegaremos ao pódio. O real então se mostra não é nem no começo, nem no fim, mas no meio da... (eu sei, eu sei que você já conhece essa frase, deixa eu só terminar) ...travessia.

domingo, 10 de janeiro de 2021

19) Três Corações

Prisão de Alcatraz

Há coração escondido pelas costelas como se estas fossem grades de uma prisão de segurança máxima.

Há coração menos preocupado, que sai pelo buraco da fechadura enquanto a chave da porta se perdeu nos bolsos daquele short no fundo do cesto.

Há coração que deixa a porta escancarada e se entrega entusiasmado pelo mundo como se visitasse diariamente as pontes do rio Sena.

O primeiro só sai uma horinha por dia, para tomar banho de sol. Se segura ao máximo para não falar o que pensa, afinal pode ser retalhado. E, por esconder os desejos na garganta, está sempre com azia, com dores no estômago, tristezas sem porquês e olhando para os próprios defeitos como se fossem muros gigantes protegidos por arames farpados. 

O segundo bate forte quando o narrador grita gol, mas não tão forte que vá fazer o coração vizinho bater o interfone ou aquele gancho para a polícia. Derrama seu amor por pessoas próximas, os amigos e as amigas, namorados e namoradas; pelos pais ainda derrama amor em conta-gotas, em datas comemorativas, e acredita que a queimação do estômago seja herdeira do excesso de pernil comido no natal.

O terceiro bate forte tanto na arquibancada de um campeonato de escola quanto na primeira fila de um show da Ivete. Tem sempre uma história para contar na ceia e nunca abaixa os olhos para ver se está escapando pelas pernas. Não reclama de dor no estômago, porque nunca teve, e se pergunta "o que é estomazil?", deixando todos à mesa com a goela em chamas, desacreditados que ainda existam seres que não deram nenhuma bolinha num comprimido desses.

Tem coração que consegue dar uma voltinha no quarteirão, mas de tornozeleira. Vai até a esquina mais próxima, olha para todos os cantos, assustado, com medo de que o descubram fugindo, volta rápido para dentro de si, passa a noite inteira com insônia, dorme duas horinhas e acorda amedrontado com a autocobrança enroscada na própria canela.

Tem coração que dorme uma noite de sono mais ou menos tranquila, e só começa a bater forte quando tem sonhos com os pais em diversas situações, tanto ruins como boas. Acorda com a ajuda do despertador entre 9 e 10 da manhã, ainda sonolento, e chega quase sempre atrasado ao trabalho, com as desculpas querendo sair pela boca, mas controlada no centro da garganta.

Tem coração que dorme só de encostar a orelha no travesseiro. Acorda às oito horas, longe de qualquer ressaca moral, pronto para ir ao psicólogo uma única e última vez, só por curiosidade, já que pensou seguir a profissão de psicanalista – afinal gosta de gente. 

quinta-feira, 9 de julho de 2020

18) Suponha que...

Suponha que você more no bairro Serrano, que fica na região noroeste de Belo Horizonte, coladinho à Contagem, bem distante do centro de Beagá, e tenha um irmão mais velho.

Este irmão gosta de ler. Bem e-v-e-n-t-u-a-l-m-e-n-t-e, mas gosta. E de quinze em quinze dias ele leva um livro para casa, a mesma casa em que você mora.

Suponha também que você goste de ler, mas suponha que, diferente de “eventualmente”, goste bastante de ler. E até aí você sabe que existem livros. Eles ficam ou nas livrarias ou na biblioteca da sua escola (trancada na hora do intervalo). Na sua casa não costuma ter livros.

Moradores do bairro Serrano, na Região da Pampulha, reclamam de ...
Mítico Bairro Serrano visto de cima.
Aí você pergunta para o seu irmão onde é que ele conseguiu aquele livro do Stephen King. Ele responde que foi lá no Centro Cultural Pampulha, no Urca.

Você sobrepõe a suposição (logo, muito acima) e se certifica que o Urca, como Contagem está para Belo Horizonte, fica do ladinho do bairro Serrano; é descer a avenida principal até chegar na ponte do córrego e atravessá-la. Melhor do que tudo isso, você já tem 18 anos, portanto, já pode criar uma ficha (só sua) na biblioteca do CCP.

De identidade e comprovante de residência (a mesma residência do seu irmão) em mãos, você desce a avenida, caminhando até a ponte, atravessa a ponte, sobe um pequeno morro (pequeno para mineiro) e se depara com o Centro Cultural. Ali no início da aparição, logo depois da porta de metal e vidro, diante dos seus olhos contentes: a biblioteca.

Mítico Centro Cultural Pampulha, no Urca.
Três ou quatro prateleiras pequenas, duas mesas baixas de centro e uma mesa alta com uma pessoa sentada em uma cadeira (você se lembra) que deveria ser (e era) a bibliotecária.

Vim fazer a carteirinha pra pegar livro emprestado, você diz.

Carteirinha não tem, é apenas um registro num computador branco-amarelado de monitor gigantesco (afinal estamos no início dos anos 2000), mas serve.

Pode sentar, deixa eu ver aqui seus documentos, responde a bibliotecária.

Você se senta e se sente importante durante um tempo. Responde à bibliotecária as dúvidas dela, como o CEP correto, o número do telefone fixo. Em menos de dez minutos, quiçá menos de sete, você tem um registro. Melhor do que isso, já pode levar livros para casa.

Suponha que naquela época você ainda estivesse descobrindo o que ler, os autores que fariam a sua cabeça, os gêneros textuais que melhor narrariam seus desejos, os mundos que perfeitamente se encaixariam no seu mundo. Para alimentar todo esse universo, a biblioteca do CCP, bem pertinho da sua casa, era mais do que uma guarnição, era um prato cheio. Do típico arroz e feijão ao excêntrico sushi, quer dizer, de autores já conhecidos e amados por você, como Luís Fernando Veríssimo, Rubem Fonseca, Henfil e companhia, até aqueles que você se apaixonaria, como Hilda Hilst, Borges, Kafka etc.

Dessas experiências de leitura, de senso de comunidade, de cultura compartilhada, de trânsito de um bairro a outro, de visões e aprendizados, de saber, e esse saber como significado de “existem bibliotecas além da biblioteca da minha escola”, levaria você a frequentar o CCP de forma assídua, mas o anexo da Biblioteca Luiz de Bessa também, além das dezenas de bibliotecas da UFMG, do MIS Santa Tereza.

E em qualquer lugar que você venha a morar em Belo Horizonte, depois de já ter dado uma voltinha para conhecer o bairro, tomar um sorvete e sentar na praça, você vai se perguntar: será que tem uma biblioteca por aqui?

Suponha que Borges uma vez teria dito que o paraíso seria uma biblioteca. Suponha mais uma vez, então, que o paraíso fica logo aqui, na Terra, na rua Expedicionário Paulo de Souza ou na Rua da Bahia ou na rua Mármore ou melhor…

Nem suponha.

segunda-feira, 25 de maio de 2020

17) As chaves do entendimento abrem as portas da percepção?

No longínquo terceiro ano do ensino médio, 2005 dC, um amigo chamado Renato Amaral me emprestou um disco do Radiohead, o Hail To The Thief, e com ele tive uma linda viagem rumo ao desconhecido.

Hail to the thief ou Viagem ao desconhecido (com volta, só não sei pra onde)

Naquela época ouvia música de um jeito diferente, um jeitinho que tem voltado depois de uma década desatenta e negligente, uma maneira de ouvir com atenção, banda a banda, disco a disco, música a música, sem pressa, saboreando. Não existia esse lance de ouvir um single ou músicas picadas. Para se conhecer e saber se a banda era boa, precisava ouvir um disco inteiro, dois, três, toda a discografia. 

Ali, com os meus 18 anos, lembro de ouvir música ao acordar, colocando um disco pra tocar no micro system enquanto me aprontava pra aula. Esse disco tinha quer ser curtinho, de trinta minutos, no máximo. Depois, ouvia alguma coisa à tarde, geralmente bandas que mais amava porque sobrava tempo, podia dançar no quarto, tocar bateria imaginária, e depois, antes de (ou para) dormir, ouvia mais um disco. Era então a hora do Radiohead. 

O micro system dividia espaço comigo na cama e, aos primeiros sinais do meu cochilo, eu metia o dedão no off e colocava o aparelho pra desmaiar também. 

De volta ao passado: saco o cd do saquinho (cd pirata), abro a tampinha do aparelho após acionar um botão côncavo, insiro – com a habilidade de um sommelier – a bolacha espelhada dentro do micro system, abaixo a tampa, dou o play. Toca a primeira música, que eu descubro qual é lendo a parte de trás do encarte (ou o que havia de encarte em um cd pirata), 2 + 2 = 5. Começa lentinha, lentinha, com aquela voz miúda e aguda (nem tão miúda e nem tão aguda como a da Sandy, mas chorosa), vai crescendo, crescendo aos pouquinhos, estoura, plot twist, musicão. Um rock, com elementos, melodias e timbres estranhos, mas um rock, guitarra e tal. 

Ainda estou acordado (um ótimo sinal, pois foi alguns anos depois que começaram as minhas insônias, que já estão se despedindo da minha vida, graças), a segunda música passa a tocar. Ainda não fazia ideia, mas seria uma das minhas preferidas da banda. Sit Down Stand Up também começa lentinha e vai crescendo, o crescimento é mais sutil que a anterior, degrau por degrau, mas de elementos mais estranhos, melodias e timbres que se misturam com música eletrônica. Não é um rock, o que é bem estranho, afinal eu deveria ouvir apenas rock, em 2005 sou um rockista, pô. 

A terceira, bem lentinha, e continuaria assim, beeeem len-ti-nha. Dormi nessa música.


Passei uma semana dormindo nela, como um fóbico passeando sobre o viaduto Santa Tereza, não conseguia atravessar a tal ponte. Até que desisti – que banda difícil. Devolvi o cd pro maninho Renato. 

Semanas depois apareceu um outro amigo, o da rua de cima, o Magrelo, que copiava vários discos, praticamente todas as bandas de rock que existiam, ele tinha tudo. Esse mesmo amigo me emprestou toda a discografia do Pearl Jam, que viria a ser a minha banda preferida até os vinte anos. Ainda acho o Riot Act o melhor disco, mas acabou ali. Esse amigo da rua de cima foi também quem me emprestou o The Bends e o OK Computer, e falou, se você não gostar do primeiro, tá tranquilo, mas se não gostar do segundo, acho que você nunca vai gostar da banda. Qual a banda? Radiohead.

Ouvi o primeiro, o The Bends (o segundo da carreira deles). Um disco bem simples com arranjos magros, de algumas canções que lembravam o U2. Gostei. Ouvia sempre, era calmo. Levei até pro Lucas ouvir e ele pontuou a semelhança com o U2. Como aquilo podia ser Radiohead e aquele outro disco também? O Pearl Jam tinha me ensinado sobre experimentação em alguns discos como o Vitalogy, No Code, ou em como bandas podem se modificar conforme os anos passam, mas me ensinara pouco. Até que deixei de lado o The Bends e fui atrás de encarar o outro disco, o OK Computer. Sem imaginar a pedrada que viria.

A primeira pedra caiu do espaço, costumam chamar isso de meteoro: “Airbag”. Achei foda, timbre bem louco da guitarra no riff principal. Ouvi a segunda música e minha cabeça saiu da Terra e foi para o espaço, explodindo. Achei o melhor disco do mundo por muito e muito tempo. Claro, depois de ouvir bastante esse disco, ver todos os clipes, ler sobre a banda, quis ouvir os outros. É aí que o Renato retorna à história, pedi a ele o Hail To The Thief de volta. Ouvi… ouvi tranquilo como uma nave. Entendi (esse verbo complexo) o disco, não dormi em nenhuma música e ainda permaneceu como o meu disco favorito da banda. Depois vieram outras pedradas, Kid A, Amnesiac (discaço com sobras da gravação do Kid A). Ouvi a banda por alguns anos até aparecer o In Rainbows, o primeiro disco deles que eu vi eles lançaram e que foi “doado” pelos integrantes da banda ao público. Um ótimo disco. Ouvi menos do que os outros, talvez minha cabeça já estivesse se encaminhando em direção a outras searas. Até que chegou o King Of Limbs. Ouvi uma vez ou duas; não desceu, achei um disco preguiçoso, parecia que a banda estava no fim, houveram rumores, Thom Yorke já estava lançando disco solo e disco com o Atom. Quando chegou o Moon Shaped Pool eu já não tinha qualquer interesse na banda, ouvi uma música ou duas. Pareciam músicas covers do Radiohead, vai ver eram. Essa mesma impressão eu tive com os novos discos do Pearl Jam e do Red Hot (que hoje considero uma das bandas mais chatas que existe, e eu era muito fã na adolescência). Não desmereço nenhuma dessas bandas, apenas não são mais relevantes para mim neste momento, mas foram demais, grandes amigas. Enfim, foi depois de algum esforço que minha cabeça aceitou o Radiohead, e eu fui capaz de compreender a sua música.

Quando a sua cabeça aceita algo? Olha, sempre tentei ler Dom Quixote, sempre achei dificílimo. Nunca entrava na minha cabeça, larguei inúmeras vezes depois de “ler” as primeiras páginas. Dias desses peguei só pra passar o tempo enquanto não começava a novela (dei pra assistir na quarentena). A leitura simplesmente fluiu e está fluindo. Depois de algumas tentativas frustradas, a leitura desceu redonda (não como a Skol, mas como a Heineken) como se eu tivesse compreendido, absorvido, psicografado o livro. Essa absorção tem algo de maior do que o simples entender, é outro entender, é a cebola interminável. Essa nova leitura me induziu ao uso de chaves de entendimento, saca só. Usei uma das chaves para entender que o estilo pomposo do texto sempre teve a ver com a paródia de romances de cavalaria, fazia parte do humor do livro, Quixote é um livro de humor. Essa era uma das chaves do entendimento. Talvez a principal, ou a necessária. A chave que eu precisava para abrir a pesadíssima porta verbal. Com o tempo a gente vai se parecendo com leões de chácara, portadores de chaves de leitura; a paciência e a persistência, inclusive, são chaves de ouro. 

Então, quando um livro, um disco, um filme te aceita? Quando você pode entrar? Quando ele entra em você? O meu diretor favorito se chama David Cronenberg. E um dos meus escritores favoritos se chama William Burroughs. Em 1994, Cronenberg fez um filme inspirado no livro Naked Lunch, do Burroughs – pra quê, preciso ver esse filme, provavelmente foi o que eu disse. Fui assistir e achei dificílimo. Não entendia o que acontecia, pra onde a história caminhava, eu me encontrava perdido como se fosse Perseu sem o fio de Ariadne. Achando geniais a fotografia, a trilha, os efeitos visuais, mas a história me cansava porque simplesmente não a entendia. Abandonei várias vezes o filme. Até que um dia voltei a assistir. Tem isso também. Por que assistir de novo se não colou da primeira vez? Bem, não sei. Talvez a gente tenha que usar as chaves, elas não podem ficar no bolso. Isso até me lembra um conto da Lygia Fagundes Telles, acho que se chama Os Objetos, não sei, só sei que em determinada hora do conto não me lembro se o narrador ou o personagem (ou seria narrador personagem?) se questiona – uma faca só tem função de existir se cravada no peito. Quis dizer o seguinte: enquanto a faca está adormecida no faqueiro, ela não existe. Uma chave no bolso não tem por quê. Uma chave para abrir uma leitura é uma chave mestra, uma chave que funciona, que encontrou seu lugar no mundo.


Forgotten Cronenberg: Naked Lunch - Byl Holte - Medium
Naked Lunch, o filme. Queria essa máquina.

Depois de usar a chave da insistência, descobri a história do filme: simples, com um fio narrativo tranquilo de acompanhar, as paranoias que se bifurcavam do centro da trama sempre retornavam à ela, à espinha dorsal da história. O filme então desceu como mel e continuei, e continuo durante esse anos todos, tendo o Cronenberg como o meu favorito. Parece que todas as minhas chaves cabem perfeitamente nas suas portas de percepção, ou seus filmes atravessam facilmente as minhas portas mentais. Quais chaves você carrega no bolso? Quais portas precisam ser abertas?

quarta-feira, 20 de maio de 2020

16) O vício que não me destruiu ao longo dos anos

Antes de colocar essas palavras em ordem, estava lendo um romance de Luiz Alfredo Garcia-Roza, Um lugar silencioso. Mergulhei na empreitada faz uns quatro dias. Já tinha o livro na prateleira e ensaiei algumas vezes o mergulho, mas pendurei a toalha outras tantas vezes, antes de cair na água, adiando o nado para a época de quarentena (não que eu soubesse que iríamos cair nesse poço).

Já dentro do livro, sem conseguir largá-lo por muito tempo, pipocou na minha cabeça um pensamento precedido de uma sensação, a de prazer. Ultimamente flashback é o que minha cabeça mais tem gostado de usar para contar as suas narrativas absurdas. E são com esses recursos que tenho me deparado diariamente com comparações entre o meu passado e o meu presente. A reconstrução contínua da minha memória tem criado déjà-vu de longas distâncias espaço-temporais. Posso explicar melhor.

Flashback: antes das palavrinhas rechearem este texto, estava na rede lendo o Garcia-Roza, sentindo prazer pela leitura, querendo ler mais, ao mesmo tempo guardando para não faltar no futuro, e tudo isso me remetendo às primeiras memórias de leitura da adolescência; olhando para o texto corrido e para o número de páginas, fascinado ao descobrir a cada parágrafo lido que aquele bloco de papel impresso chamado livro me dava mais e mais prazer conforme eu ia se apossando dele. Uma sensação idêntica àquela experienciada na juventude.

Ao longo dos anos esse sentimento foi se intensificando. Hoje tenho pelo menos dois livros para me fazer companhia durante o dia: um para a tarde, outro para antes de dormir. Às vezes mudo os livros de turno, às vezes coloco mais um livro na conta. Tornou-se um vício que não me destruiu (nem parece que vai me destruir) ao longo dos anos.

Time Enough at Last: “The One That Haunts People” | Shadow & Substance

Abaixo um diálogo entre o gerente do banco e o funcionário Mr. Bemis,
em Time Enough At Last.



"You, Mr. Bemis, are a reader!"
"A reader?"
"A reader! A reader of books, magazines, periodicals, newspapers. I see you constantly going downstairs into the vault during your lunch hour".
O kindle entrou na minha vida tem também algumas semanas. Confesso que ainda não me entreguei ao aparelho. Foi útil para ler alguns artigos sobre cinema de animação, fotografia, mas com a literatura — e ainda não sei o porquê — não foi para frente. Li alguns capítulos de Crime e Castigo, me pareceu uma tradução ruim, então deixei de lado. Agora baixei Vidas Secas e alguns livros do Philip K. Dick; assim que a empreitada Garcia-Roza terminar quero cair matando para despachar esse ranço (se é que tenho) com o kindle. Na real nem sei se é ranço. Acho que é apenas um hábito, uma maneira de ler, um contato que falta com o físico, com a folha de papel, a diagramação, coisas que sinto falta. Talvez a noção de estar lendo. Quando estou lendo no computador, estou lendo mas como se não estivesse; não me pergunte por que sinto isso, depois penso sobre. Inclusive não faz tanto sentido: você sente que não está lendo este texto? Pois é, ao menos que você tenha ele impresso diante dos olhos, não passa de um texto digital. Ou talvez tenha a ver e nem sou eu quem estou dizendo, mas eles. 

Voltando ao prazer. Fiquei pensando nessa coisa da leitura do livro ainda suscitar essa experiência prazerosa depois de tantos anos. Confesso que me sentia anestesiado pelas incontáveis possibilidades de entretenimento (considero o livro entretenimento), computador, celular, séries, filmes, youtube etc. A leitura voltou com muita força e o desejo de escrita também. Às vezes precisamos de um tempo, vai ver é só isso. Estou encantado com amigos que não liam com frequência falando dos livros que têm lido nessa quarentena. Gente que engole 400 páginas em pouco mais de uma semana e vem dar o retorno da leitura com a maior voz de felicidade do mundo. Tenho acreditado nelas, na leitura, nesse prazer que nos alegra ao longo dos anos. 

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

15) Klebão, o pontapé narrativo

Persigo a escrita como um fanático persegue o clube do coração. Desde os 12 anos, época em que minhas canelas atingiram o mais alto patamar em finura, levo isso a sério, até porque não existiu escolha.

E também foi com 12 que tive na sexta série um severíssimo professor de geografia. Alcunha do dito: Kléber. Altura, peso e fisionomia do dito: um metro e muitas outras medidas, uns setenta quilos e muitas outras gorduras, óculos-barba-nariz.

Os alunos, pelas costas (pela frente é que não seria), chamavam-no de Klebão. Não me lembro de ter visto alguém conversar em sala ou ir contra aquele professor; uma braveza que se impunha, expelia medo, fazia menino mijar pelas pernas e depois morrer de vergonha perante os coleguinhas de sala.

Em determinado dia, o Kléber deu pra gente um dever de casa para ser entregue na aula seguinte. O para casa era: criar uma narrativa que recontasse a chegada dos portugueses no território brasileiro.

Nunca fui de fazer para casa ou sempre fiz mal feito, mas as redações (as literárias) mexiam com a minha cachola. E estava ali uma oportunidade para apresentar aquilo que eu realmente tinha apreço e prazer em produzir: um texto narrativo.

Não me lembro como se deu a escrita do meu texto, se teve pesares, alegria (penso que sim), mas no dia seguinte ele se encontrava prontinho, em papel almaço, pronto para ser entregue ao ríspido professor.

A aula foi assim: todos os alunos em sala e o professor Kléber em riste próximo ao quadro negro. Sua voz grave ecoando para a turma: então, quem fez o dever de casa?


Escultura do filme "Darkness, Light, Darkness", de Jan Svankmajer.
Tem a ver com o texto? Não, mas eu gosto.

Como sempre fui um aluno "na minha" (pelo menos nessa segunda sexta série, já que a anterior eu tinha sido o capeta), continuei "na minha", esperando que algum aluno mais responsável, mais nota 10 — afinal eu fui um típico aluno nota 7, muitas vezes 6 —, levantasse a mão. Ninguém. Ninguém mais umas duas vez. Pra quê? Enchi meus pulmõezinhos medrosos de coragem e disse que tinha feito o tal dever de casa. Não deu outra: então leia.

Igualzinho um fusca custoso, fui lendo. Aparentemente tossindo, com certeza engasgando, fui lendo. Realmente me lembro um pouco do texto. Havia uma discussão entre o capitão e um de seus funcionários sobre a possibilidade de visualizarem terra alguns quilômetros à frente. Mal sabia que quem estaria embarcando e encontrando um lugar no mundo não eram os navegantes, mas eu mesminho.

Ao fim do engasgo, do suor frio, da leitura, o professor Kléber, no alto de sua voz grave e de sua testa franzida, largou de ser assim daquele jeito duro, deixando o cabelo da geral de pé quando não dispensou elogios sobre o texto. A real é que foi uma rasgação de seda. Uma seda que eu jamais tinha tocado. Uma cena para jamais esquecer, vinda do genioso professor Klebão. Com palavras novas para a minha cabeça: estrutura, narração, diálogo etc.

Daquela sexta série eu me lembraria do braço quebrado do Adam, das idas à biblioteca para pegar livros do Veríssimo e do Fonseca, dos amores platônicos, e claro, do professor Klebão, com aquele seu jeito, incentivando um escritor novato.

A partir dali fiquei à vontade para desenvolver outras narrativas que culminariam n'As Mais Velhas Histórias de Amanhã. Papo pra mais tarde.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

14) Um Jeito de Fazer Música

1. A chuva trouxe a água e levou a minha internet. Como sou desesperado sem internet. Assim que a conexão cai, começo a pensar no que fazer.

2. Minha primeira atitude é dar uma volta pela casa, sem destino certo, talvez abrir a geladeira, fitar as prateleiras vazias, a maçã murcha, o galão de água com cheiro de gengiva.

3. Depois vou para o violão. O violão funciona para mim como um refúgio, o meu não-lugar, o meu espaço no tempo. O tempo restaurado.

4. Começo por balbuciar alguns acordes, umas melodias na garganta. Vou fuçando as possibilidades harmônicas, rítmicas, melódicas, até encontrar algo que nunca tenha me visitado antes.

5. É quase de praxe começar pelo acorde de Lá menor. É um dos meus vícios. Curto também o Ré menor. O Si menor. Caso não seja menor, gosto do Sol.

6. Quando pinta uma melodia na minha garganta, que escape ao baixo do acorde, enxergo ali a porta de entrada; tenho nas mãos as chaves, ou as cordas do violão, ou cordas vocais, e minha cabeça vai se chafundando no inconsciente, nas ideias e assuntos que eu gostaria de falar (que eu nem sei, até aí, se gostaria), a melodia e o ritmo também darão o tom do discurso: pode ser que eu fale sobre mim, sobre algo que tenha acontecido comigo, sobre alguém, uma situação, uma crônica.

7. Cada vez mais busco a simplicidade, as palavras que veem sem suor, sem firula, o texto completamente oral, assim como as pessoas se comunicam.


8. Encontro a letra, ou melhor: o primeiro verso. O primeiro verso dá o tom. A partir daí construo os próximos. Dois acordes, três. Raramente, quatro. Tenho feito músicas muito curtas, de 1 minuto, 30 segundos. Às vezes três versos são suficientes, dois. Um verso potente, caso aconteça, pode ser o ideal.

9. Daí repito essa estrutura por uns 10, 20 minutos; deixando que meu corpo, meus pensamentos, a levada, o ritmo, a ocasião e o acaso decidam para onde a música deva ir. Às vezes pinta um outro verso, um novo acorde, uma mudança de tom.

10. Depois da música pronta, gosto de pensar no próximo passo: tipo, o que farei agora?

11. Gravar, uai. Utilizo um microfone ZOOM, desses de gravar cinema. Gravo direto nele, cantando todas essas repetições, no violão, ou no tecladinho Kashima, 10 minutos de gravação, dela usarei apenas 1 minuto.

12. No meio do registro, repetindo a música incessantemente, começo a me sentir mais à vontade, solto, relaxado — é mais do que necessário para alguém que não tem costume de cantar e desafina com a mesma facilidade que formigas têm de invetarem filas.

13. Recorto a melhor parte, insiro num programa de vídeo — tenho usado há mais de 4 anos o Sony Vegas Pro 11. Lanço a música na track, caço elementos na internet (ou que já estejam no meu pc; coisa que acontece se a conexão tiver desabado) que corroborem com a minha concepção de música Alonima. Os elementos passam por efeitos sonoros de filmes de ficção científica e terror, falas de monstros, articulações robóticas, sons de naves espaciais, coisas banais como passos de caminhada, aberturas de portas, barulhos de ventos, pios de pássaros. Daí crio uma mix bem simples, tosca, DIY, desses elementos.

14. Penso no clipe; ele deve ter no máximo 1 minuto já que a minha intenção é postá-lo no Instagram. Posso seguir dois caminhos para fazê-lo. O primeiro deles é pensar na história: como será, se uma narrativa linear, tal, e a partir daí tentar esboçá-la numa espécie de pré-roteiro, já pensando em como tudo se resolveria com as ferramentas que tenho — inclusive bastante precárias, mas que dou o maior valor por serem os principais responsáveis pela linguagem.


15. A segunda opção, e a que mais tem dado certo, é coletar material durante os dias, sem pensar muito que destinos eles terão. Pode ser uma filmagem enquanto estou no ônibus, uma leitura de um livro, um desenho criado, filmagens e fotos caseiras.

16. Tendo esses elementos em mãos, começo a criar o vídeo sem saber exatamente o destino, apenas entro no banco de dados Alonimo, coleto os materiais que juntei durante a vida, lanço-os na track de vídeo do Sony Vegas, vou trabalhando as imagens.

17. Existe um padrão de títulos com três letras, que sempre acompanha o vídeo, além do padrão de tempo, um minuto de música e vídeo, no máximo, e o padrão de elementos eletrônicos que mencionei antes, e agora, uso bastante os mesmos efeitos combinados com a cor natural e a estrutura também natural dos elementos coletados. Esperando que eles deem o tom do produto final.

18. Renderizo e já subo para o Insta, caso a internet venha à tona, e costuma acontecer. Subo independente da hora e do dia, geralmente na madruga.

19. A conclusão do trabalho me traz alegria e também uma pequena tristeza, pois o lance é o processo; o processo gera um tesão quase incontrolável, onde só bebo água, canto, toco, gravo, edito, pesco alguns biscoitos. Mas o incansável está sempre à cata de laçar outros desejos, músicas, textos, filmes, orgasmos. 

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

13) Júpiter Maçã ou respeito próprio

Estava eu assistindo a um programa pelo Youtube, um programa já extinto, chamado Musikaos, exibido pela TV Cultura em passado recente, apresentado por Gastão Moreira, jornalista cultural de quem eu tenho grande admiração.

Esse moço é o Júpiter.
Gastão, nos dias atuais, toca um canal no Youtube chamado Kazagastão, o KZG. Foi em uma das playlists do canal — ou nos vídeos que o youtube relaciona, não lembro muito bem — que descobri um arquivo de vídeo do Musikaos em que Júpiter Maçã, ou na fase artística na qual foi gravado o vídeo, Jupiter Apple, apresentou-se com duas músicas e deu uma breve entrevista. E foi nas poucas palavras ditas pelo músico, e não nas cantadas, que me liguei, a ponto de pensar sobre aquilo a madrugada inteira, inclusive depois de acordar.

Quer dizer, algo que me colocou a escrever, sentar a bunda e escrever sobre. O lance foi simples, entre a primeira música e a última, pois só tocaram duas, Gastão partiu para a entrevista munido de pequenas perguntas (em sentido quantitativo) e obteve várias grandes respostas (em sentido qualitativo). Em uma delas, que foi mais ou menos assim — Júpiter, você toca vários instrumentos, domina o contrabaixo, gravou um disco inteiro sozinho, você teve professores ou sempre foi um autodidata?

Eu sempre soube de Júpiter como um autodidata, fiquei esperando a sua resposta, seria sucinta, "Sim, sou um autodidata", mas ele respondeu outra coisa, com aquele sotaque gringo e gaúcho — Não, tive professores. John Lennon, Harrison, Syd Barret.

A resposta arrancou sorriso meu e do entrevistador em planos temporais distintos. Para selar com cera vermelha, Gastão levantou:
— Você é um cara que teve muitas fases, cantou blues, folk, rock and roll, cantou em português, agora em inglês, você leva a sério essas diferentes fases, não é?
Júpiter arrematou:
— Se eu levo a sério as minhas fases? Sim, eu me respeito.

Discaço.

E é este o ponto. Respeito próprio. Essa coisa do, Sim, eu me respeito, me fez refletir tanto sobre o respeito próprio, que... Putz. Algumas poucas e insistentes perguntas povoaram minha cabeça: quando você deixou de fazer algo que queria por algum motivo, por exemplo, por medo? Por julgar não ter tempo. Quantos poemas bons você deixou de criar ou letras de música porque não teve coragem de dizer o que pensava? Por que se preocupou com quem leria, com a cena musical da sua cidade? Quantos livros engavetados. Quantas vezes foi omisso a ponto de não dizer aquilo que pensa do mundo, dos parentes, dos amigos, da televisão, dos seus amores? Tudo por desrespeito próprio, eu aposto.

A arte do respeito próprio exige confiança. Desafio, portanto, dos mais difíceis. Não ceder. O simples gostar do que você gosta, relacionar-se com quem você gosta. Estar próximo e trabalhar para aquilo que você ama. Errar. Considerar suas motivações, seus pensamentos, seus desejos. Aqueles mais absurdos. Suas fases, a infância, a adolescência. A raiva, o ódio, o amor, a carência, o ciúme. A paranoia.

Júpiter manda joia.

Escrevo isto daqui enquanto me vem toda a discografia do Júpiter. Uma obra de liberdade, de ambição. "Sim, eu me respeito". Gastão anuncia a banda pela última vez naquele dia, Júpiter toca a última música, então do trabalho posterior, o Hisscivilization, e deixa um cara em Belo Horizonte sem dormir.